O Triunfo da Marcha da Insensatez

O quadro contemporâneo das relações internacionais tem apresentado uma situação que pode comprovar uma crença da cultura hindu de que a humanidade pode estar vivendo a Era de Kali (a Kali Yuga), quando o homem presencia  um período de degradação de sua própria humanidade, da cultura, da sociedade, do meio ambiente, em síntese, uma degradação espiritual graças ao fato de estar vivendo cada vez mais longe de Deus. É a Era em que o Divindade Kali terá permissão para caminhar nesta terra, já que estão postas as condições propiciadoras para que ela transite livremente, até que Kalki apareça para destruí-la, quando surgirá uma era de ouro.

Os cristãos tem perspectiva assemelhada, pregando que estamos diante de um momento apocalíptico, quando a Revelação, significado de Apocalipse, ocorrerá, acompanhada de grande destruição para depois surgir uma era de paz. Curiosamente, o próprio Papa Francisco declarou, recentemente, acreditar que que estamos vivendo a terceira guerra mundial.

Poucos campos são tão férteis para refletir estas teses quanto as relações internacionais contemporâneas, onde uma expressão usada por vários especialistas ombreia com estes presságios: a marcha da insensatez.

O fato se confirma, não apenas pelo cenário global estar pulverizado com conflitos, guerras civis e desagregações de sociedades, uma vez que as instituições vem perdendo paulatinamente sua força e significado, sem que em seus lugares surjam outras capazes de preencher o vazio com a mesma capacidade de gerar equilíbrio e respeito pela vida e pela alteridade.

Está sendo confirmado pela incapacidade das lideranças mundiais pensarem e entenderem a nova realidade do século XXI, superando o século XX, superando até mesmo a forma mental da Guerra Fria, que, curiosamente, vem sendo ressuscitada apesar de uma possível sociedade civil internacional que está surgindo pedir constantemente para que o passo seguinte seja dado, em direção ao encerramento do século passado.

O Oriente Médio e a Crise Ucraniana são exemplares dessa situação de marcha da insensatez. Quando surgiu a Primavera Árabe, ela foi aplaudida porque representou para muitos a emergência das sociedades civis daquela região para encerrar os regimes autoritários e construir democracias. No entanto, os regimes caíram pelo esgotamento naquelas lideranças autoritárias de sua capacidade de exploração do povo e pelo isolamento que elas construíram para si próprias. Mas, os rebelados, ao atuarem, não tinham o entendimento do caminho para a criação de um cenário de respeito mútuo e tolerância necessários ao estabelecimento de regimes democráticos, algo que foi tanto proclamado por eles, pois as rebeliões se deram em sociedades onde instituições com características e essência democráticas não existem, ou são poucas. Ou seja, derrubou-se um regime e o poder foi ocupado, mas não para a implantação da democracia e sim para o estabelecimento de outra ordem com mentalidade similar aquela afastada, mesmo que por outro grupo.

Pior, como forma sedativa, festejou-se o que ocorria como o nascedouro de uma realidade democrática porque uma das instituições da Democracia foi adotada, o sufrágio, como se o Regime Democrático se resumisse a isso, ao voto, ao invés de se lembrar que ele se configura pela existência de instituições que permitem ao povo escolher os governantes, controlá-los, participar do processo de governança e ser capaz de retirá-los do poder, caso não cumpram seus papeis perante a sociedade, além de haver instituições que preservam o respeito pela diferença e o direito ao contraditório.

Como não foram criadas instituições democráticas, nem foi possível dar educação nesse sentido para que elas fossem pensadas e geradas, reduzindo Democracia ao voto, a Primavera Árabe saltou o verão e o outono e afundou no inverno sem estar vendo luz e sem ter gerado frutos adequados.

Os países continuam no caos e sob autoritarismos, alguns apenas com novos algozes, ou em processo de fragmentação, com a fragilização do Estado, bem como com a destruição das sociedades, tal qual se pode observar na Líbia, no Egito e na Síria, que, especialmente esta, em face do genocídio com mais de 220.000 mortos e dos milhões de refugiados pela região tem refletido diretamente no Líbano, Jordânia, Arábia Saudita, Israel, territórios reclamados pelos palestinos, bem como nos demais países do Oriente Médio que se posicionam em função das suas características, das idiossincrasias das casas reais, dos posicionamentos dentro do Islã e de reivindicações de autoridade perante os demais países muçulmanos.

Dificilmente, hoje, se pode compreender e identificar de forma clara a quem cabe a culpa pelo cenário de conflitos entre os povos árabes, bem como desses com os ocidentais. A possível culpa se dissipou na perda de norteadores morais por todas as partes e no emaranhado de alianças que colocam conjunturalmente inimigos inconciliáveis na condição de parceiros para enfrentar inimigos mais terríveis, caso explícito das tentativas de normalização das relações entre Ocidente e Irã, mesmo que venha recebendo contraposição direta de Israel, para confrontar o Estado Islâmico, o qual vem rompendo todas as normas de civilidade e humanidade em relação a todos e adotando, na sua mais pura definição, o comportamento anti-humano e genocida.

O cenário na região é típico de um sistema em degradação contínua e irreversibilidade, em que cada ação, mesmo a bem intencionada, gera baixa, ou quase nenhuma certeza sobre um resultado positivo, mas traz grande probabilidade de resultar em fracasso, ou em mais degradação, simplesmente porque as ações são direcionadas para solucionar um problema gerado por solução anterior aplicada a outro problema ad hoc, numa marcha contínua da insensatez, por incapacidade constante dos líderes de buscarem entendimento estrutural e, assim, uma solução também estrutural que gere paz com comprometimento coletivo.

Se olharmos o Estado Islâmico, por exemplo, ele tem em seus membros originários o líder que se autoproclamou califa, Abu Bakr al-Baghdadi, o qual, antes, passou por um campo de prisioneiros criado pelos ocidentais (EUA) no Iraque (o Camp Bucca, que seria um campo de prisioneiros modelo de detenção para desfazer a imagem que ficou do Campo de Abu Ghraib e suas torturas), onde foi identificado como prisioneiro civil, ficando por quase um ano (durante 2004), e no qual apresentou imagem e se consolidou como uma personagem com capacidade de mediação entre os muçulmanos.

O Camp Bucca se desenvolveu também como uma espécie de útero criado pelos ocidentais. Ali, al-Baghdadi foi ganhando autoridade e adotando a postura fundamentalista que assumiu posteriormente e depois tomou o poder local na medida em que se discutia e executava a retirada dos soldados norte-americanos do Iraque, já que a presença destes estava além dos custos suportáveis para os EUA. E al-Baghdadi  conseguiu isso após ganhar experiência e força na Guerra Civil da Síria, quando participou ativamente em oposição ao Governo Assad, logo certamente deve ter sido visto como um possível aliado do Ocidente.

Esqueceram os ocidentais de respeitar uma das regras básicas da política, já que decidiram se imiscuir nos problemas da região e tomar a liderança na resolução do problema que ali se instaurara: sempre que alguém renuncia ao poder sem criar condições institucionais para que não seja produzido um vácuo, este surge e a política não tolera o vácuo de poder, sendo ele sempre preenchido por um elemento que vem para instaurar uma ordem baseada exclusivamente na força que dispõe para se sobrepor ao outro e não para acalentá-lo. Quando o vácuo é criado aquele que o preenche implanta uma ordem cujo direito é constituído pela força.

Os ocidentais tem o dever de saber disso e tinham a obrigação de prever o que aconteceria. Se começaram as ações naquele território, não poderiam ter saído sem que houvesse condições políticas, institucionais e sociais para tanto. Curiosamente, o erro está para ser repetido: para enfrentar o Estado Islâmico, estão começando o treinamento de opositores moderados ao governo sírio e para eles serão fornecidos armamentos e capacitação, segundo consta, para combater o Califado Islâmico e não o Governo de Bashar al-Assad. Só não estão explicando o que resultará desses treinamentos quando os grupos se proliferarem e tiverem de lidar com subgrupos, com os partidários de Bashar al-Assad, com os curdos que querem independência e estão enfrentando o Estado Islâmico, mas, ao mesmo tempo bombardeados pelo Governo turco e agredidos no Irã, e com os iranianos, que vem estabelecendo diálogos com os EUA, especialmente depois do Acordo Nuclear, e apoiam o Governo Assad, contra qual esses opositores moderados, mas doravante bem armados e bem treinados, se opõem.

De forma mais curiosa se vê a tentativa de isolar a Rússia no cenário internacional, que poderia estar participando da solução desta contenda juntamente com os demais países do ocidente num compromisso coletivo, já que ela vem sendo acusada de invadir a Ucrânia e, por isso, tem sido apresentada como a grande inimiga atual, curiosamente, recebendo mais atenção que o terrorismo como adversário prioritário.

A tentativa de isolamento da Rússia em muito lembra as teses geopolíticas de contenção da União Soviética que nortearam a estratégia do Oeste ao longo da Guerra Fria. A Ucrânia e o sofrimento do seu povo parece que se tornaram a justificativa para recuperar a ideia de que o poder terrestre russo tem de ficar restrito ao seu território e não pode avançar pela Europa, ou pelo Oriente Médio, nem pelo sudeste asiático, pois ele não deve ter acesso aos mares quentes, algo que o tornaria um poder anfíbio (ou seja, tanto terrestre quanto marítimo) e, por isso, com capacidade de derrotar as potências marítimas ocidentais. Quase se vê Mackinder, Spykman e Kennan assessorando os líderes ocidentais com seus telégrafos, papiros, incunábulos (está certo que incunábulo é da época de Gutemberg, mas o raciocínio atual tem se esforçado muito em regredir no tempo) telefones de disco e não de teclas ou com touch screen, sendo ressuscitados da primeira metade do século XX.

São teses que pareciam estar afastadas do cenário estratégico diante da nova realidade de integração das economias e de globalização das cadeias produtivas, que criaram uma nova dinâmica nas relações internacionais, ao ponto de reduzir drasticamente a capacidade de os Governos dos países tomarem decisões unilaterais, vendo-se obrigados a consultar uns aos outros e aos demais tipos de atores no cenário, já que, agora, um país, quando ataca a economia de outro pode estar afetando a sua própria cadeia produtiva.

Além disso, também se imaginava que estas teses estavam afastadas devido à tentativa contemporânea russa de se inserir plenamente no ocidente, por ser ocidental, buscando a reforma de sua política, de sua sociedade, de sua tecnologia e de sua economia, abrindo-se para as economias ocidentais e procurando criar as condições de investimento típicos dos demais países capitalistas, tanto que trabalhou durante toda a primeira década do século XXI para entrar na OMC, acenando que se sujeitará as normas econômicas da coletividade internacional. Nesse sentido, talvez uma forma adequada de conter o poder terrestre, talvez fosse trazendo-o para o Ocidente, ao invés de isolá-lo cada vez mais, fazendo-o migrar para outro lugar. Curiosamente, o professor Samuel Huntington deu este conselho, quando escreveu “O Choque de Civilizações?”.

Em síntese, a marcha da insensatez se mostra cada vez mais forte neste momento em que os norteadores morais e sociais se perderam, típico da Era de Kali, mas, especialmente, porque há uma recusa entre os líderes políticos mundiais em reconhecer o nascimento do século XXI. Eles estão felicitando o que chamam de novo século pela aceleração proporcionada pelo avanço tecnológico, mas esquecem que a tecnologia é uma condição necessária para a passagem de uma era para outra, mas não uma condição suficiente, uma vez que se exige também a mudança da mentalidade.

Se hindus e cristão estiverem certos, vivemos um momento de transição e de revelação em que, antes da era de ouro que pode surgir, teremos de suportar o triunfo da marcha da insensatez, com a tragédia que a acompanhará, algo que a cada dia os líderes mundiais se esforçam por cortejar.

Links Selecionados – Cenário Venezuelano

POLÍTICA INTERNACIONAL (VENEZUELA – EL NACIONAL)

Ceballos, Baduel y Oliveros ahora están privados de la voz y la acción política

http://www.el-nacional.com/politica/Ceballos-Baduel-Oliveros-privados-politica_0_683931726.html

Desde los calabozos donde permanecieron hasta esta semana, Raúl Baduel, Daniel Ceballos y Deivis Oliveros no desperdiciaron oportunidades para persistir en su oposición al gobierno: varias cartas, manifiestos y hasta videos pudieron hacer llegar a la opinión pública. Ahora, cuando las elecciones parlamentarias plantean la posibilidad de un cambio político, los tres no podrían catalizar el descontento con el régimen, pues los jueces les prohibieron tajantemente comunicarse con la prensa o intervenir directamente en la diatriba política…

POLÍTICA INTERNACIONAL (VENEZUELA – EL NACIONAL)

Capriles: El gobierno sigue con la regaladera de los reales

http://www.el-nacional.com/politica/Capriles-gobierno-sigue-regaladera-reales_0_684531568.html

Henrique Capriles, gobernador del estado Miranda, aseguró que en el peor momento de la historia de Venezuela, el gobierno de Nicolás Maduro es “oscuridad en la casa y claridad en la calle”. “Este gobierno sigue con la regaladera de los reales de todos los venezolanos…

POLÍTICA INTERNACIONAL (VENEZUELA – EL NACIONAL)

María Corina Machado indicó que el gobierno tiene vínculos con el narcotráfico

http://www.el-nacional.com/GDA/Maria-Corina-Machado-vinculos-narcotrafico_0_684531552.html

Venezuela enfrenta la más difícil encrucijada histórica desde que es República. Los próximos días serán decisivos para avanzar en la transición hacia la democracia en paz, y con un inmenso esfuerzo comencemos a reconstruir el país,  superando la profundización del colapso institucional y económico que actualmente conlleva una crisis humanitaria de terribles consecuencias para todos los  venezolanos, e incluso para los países vecinos…

POLÍTICA INTERNACIONAL (RELAÇÕES VENEZUELA – CUBA)

Maduro ha viajado 11 veces a Cuba

http://www.el-nacional.com/politica/Maduro-viajado-veces-Cuba_0_683931687.html

El viaje del presidente Nicolás Maduro a Cuba es el undécimo que hace desde que asumió su mandado en 2013, según un registro de El Nacional. En esta ocasión fue para celebrar el cumpleaños de Fidel Castro y reunirse con su homólogo Raúl Castro para discutir la agenda regional e internacional…

POLÍTICA INTERNACIONAL (MERCOSUL – DEFESA REGIONAL / PERSPECTIVA OFICIAL DA VENEZUELA)

Venezuela presentará ante el Parlasur acuerdo en defensa del Esequibo

http://www.ciudadccs.info/2015/08/16/venezuela-presentara-ante-el-parlasur-acuerdo-en-defensa-del-esequibo/

La delegación de diputados venezolanos que asistirán a la XXXIII Sesión ordinaria y Sesión especial del Parlamento del Mercosur (Parlasur), que se estará efectuando en la ciudad de Montevideo, Uruguay a partir de este domingo 16 hasta el martes 18 de agosto, presentará un acuerdo ante la Plenaria de este órgano deliberante en respaldó a la defensa que está realizando el Gobierno bolivariano sobre el territorio Esequibo…

Links Selecionados – Eleições na Argentina

POLÍTICA INTERNACIONAL (ELEIÇÕES NA ARGENTINA – CLARIN)

Para Felipe Solá, si Massa baja su candidatura y Macri la de Vidal, fovorecerían a Scioli

http://www.clarin.com/politica/Elecciones_2015-Felipe_Sola-Frente_Renovador-una-Sergio_Massa-acuerdo_electoral-narcotrafico-droga-Anibal_Fernandez-Provincia_de_Buenos_Aires_0_1413458921.html

Felipe Solá, candidato a gobernador de la provincia de Buenos Aires por Unidos por una Nueva Argentina, descartó que haya existido la posibilidad de un acuerdo entre Sergio Massa y Mauricio Macri, para enfrentar las presidenciales del octubre…

POLÍTICA INTERNACIONAL (ELEIÇÕES NA ARGENTINA – LA NACIÓN)

La Presidenta se recluyó en Olivos enojada con Scioli

http://www.lanacion.com.ar/1819736-la-presidenta-se-recluyo-en-olivos-enojada-con-scioli

La presidenta Cristina Kirchner se recluyó en Olivos durante toda la semana, en un gesto con el que buscó transmitir malestar e incomodidad con el candidato presidencial del Frente para la Victoria (FPV), Daniel Scioli. A pesar de ello, en la Casa Rosada aseguran que la relación no entrará en crisis porque ambos necesitan ganar las elecciones del 25 de octubre próximo…

POLÍTICA INTERNACIONAL (ELEIÇÕES NA ARGENTINA – DIARIO POPULAR)

Scioli: “Macri ha revelado su claro proyecto neoliberal”

http://www.diariopopular.com.ar/notas/234447-scioli-macri-ha-revelado-su-claro-proyecto-neoliberal

El candidato presidencial del Frente para la Victoria, Daniel Scioli, aseguró que su contrincante de Cambiemos, Mauricio Macri, “ha revelado su proyecto claramente neoliberal y su deseo de llevar a cabo políticas de ajuste”, a la vez que afirmó que el triunfo en las PASO es “una gran responsabilidad” que toma “con mucha humildad”…

POLÍTICA INTERNACIONAL (ELEIÇÕES NA ARGENTINA – DIARIO POPULAR)

El oficialismo está cerca de los dos tercios en el Senado

http://www.diariopopular.com.ar/notas/234460-el-oficialismo-esta-cerca-los-dos-tercios-el-senado

Si los resultados de las elecciones primarias se repiten en octubre, el oficialismo no sólo aumentaría su presencia en el Senado, sino que se acercaría mucho a los dos tercios y no se descartan además posibles acercamientos de peronistas opositores en la etapa poskirchnerista. Ocho provincias elegirán senadores en los comicios generales: Catamarca, Córdoba, Corrientes, Chubut, La Pampa, Mendoza, Santa Fe y Tucumán renovarán tres bancas cada una y hasta el momento el saldo es muy favorable para el oficialismo…

POLÍTICA INTERNACIONAL (ELEIÇÕES NA ARGENTINA – PAGINA 12)

El PRO vuelve a negar un acuerdo con Massa

http://www.pagina12.com.ar/diario/ultimas/20-279499-2015-08-16.html

En tanto, consideró que los más de 8 puntos que separaron al frente que postuló a tres candidatos (Mauricio Macri, Elisa Carrió y Ernesto Sanz) del kirchnerismo (que postuló solo a Daniel Scioli) “por supuesto” que son descontables y advirtió que “ésta es una elección de tres vueltas”, en alusión a un eventual balotage…

HIROSHIMA E NAGAZAKI NUNCA MAIS!

O desenvolvimento da tecnologia nuclear foi iniciado durante a Segunda Guerra Mundial, focado, dadas as circunstâncias históricas, na produção de armas. A humanidade a conheceu de forma traumática, após os holocaustos de Hiroshima e Nagazaki. Na década seguinte, o Presidente dos EUA, general Eisenhower, criou um novo curso para a História com o Programa “Átomos para a Paz”, direcionando-a para os usos pacíficos, especialmente a geração de energia elétrica.

Passados 70 anos dos ataques de agosto de 1945, 9 países são reconhecidos como possuidores de armas nucleares: EUA, Rússia, China, Grã-Bretanha, França, Índia, Paquistão, Israel, Coréia do Norte. A humanidade convive hoje com cerca de 20.000 armas nucleares em mísseis, aviões e submarinos desses países. O desarmamento nuclear permanece sem equacionamento. Pior ainda, recentemente vieram à tona os importantes programas de modernização de arsenais estabelecidos e em pleno vapor nesses estados possuidores de armas nucleares.

Essas armas, cada vez mais precisas e letais, são raramente mencionadas no debate sobre a questão nuclear. A única arma nuclear da qual se ouve falar é aquela que não existe (pelo menos ainda): a iraniana.

Hoje, a ameaça das armas nucleares encontra-se no final de uma longa fila de ansiedades sobre o nosso planeta e seu destino. Parecemos esquecer que o uso deliberado ou acidental de apenas 1 dessas 20.000 armas causaria uma devastação muitíssimo maior do que a de Hiroshima.

Por alguma estranha razão, a humanidade confia piamente no governo e na sociedade civil dos países que as possuem, mas freqüentemente encontra variados motivos para desconfiar daqueles que não as possuem.

Nem mesmo o debate decorrente do acidente de Fukushima reviveu o interesse sobre o tema. Pelo contrário, países que abrigam mais de uma centena desses milhares de armas, como a Alemanha, Bélgica e Itália, resolveram abandonar a geração elétrica nuclear. O Japão chegou mesmo a incluir na nova lei que reestruturou sua autoridade de segurança nuclear, lição aprendida do acidente, afirmações dúbias quanto ao uso da energia nuclear na defesa.

Todos os programas de armas nucleares dos países que as possuem precederam ou foram desenvolvidos independentemente da geração elétrica nuclear, que nunca foi causa ou caminho de acesso à bomba. Não existe possibilidade de que o renascente problema da proliferação nuclear possa ser resolvido pelo abandono das usinas nucleares.

A solução reside no fato de que, desde a década de 60 (acesso da França ao “clube da destruição em massa”), não mais existiu Estado de Direito democrático proliferante. Brasil e Nova Zelândia, além de serem democracias, são os únicos países nos quais as armas nucleares também são proscritas pela própria Constituição – exemplo pouco seguido.

A única maneira de estar seguro de armas nucleares é livrar-se delas – não apenas da iraniana, que ainda não existe, mas de todas elas. É uma tarefa hercúlea. Esse é um assunto está fora do noticiário e das agendas dos governos nacionais, organizações internacionais e ONGs. Mas se é para ser alcançada, precisa-se, pelo menos, começar a falar sobre isso. Urgente.

Originalmente publicado em: Opera Mundi