A Aliança do Pacífico: Cisma ou Realidade? O Contexto de surgimento

Sábia a coruja, representante da filosofia antiga, que alça voo ao anoitecer e após os fatos serem transcorridos investiga o passado, observando-o lá de cima com seus grandes olhos. É o Galo, no entanto, mirando o horizonte adiante, que canta o resplandecer de um novo dia, anunciando o chegar de uma realidade renovada. (Marx – Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel)[1]

Assinada em Junho de 2012, o “Acordo Marco de Antofagasta”, marca o início da “Aliança do Pacífico[2],que reúne quatro países da América do Sul e Central, sendo eles: Chile, Peru, Colômbia e México. O Bloco tem por objetivo ser uma área de livre circulação de bens, serviços, capitais e pessoas, de sorte a aumentar o comércio de mercadorias entre os países signatários e destes com o leste asiático.

Ao analisar os discursos presidenciais, as projeções de um grupo de analistas e as movimentações concernentes ao Bloco, percebe-se que há um teor otimista conquanto ao futuro do grupo, considerando-o inclusive como uma contrapartida regional ao “Mercado Comum do Sul” (MERCOSUL). Para o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, “trata-se, talvez, do processo de integração mais importante e mais profundo que aconteceu na história da América Latina[3]. Neste sentido, esta análise se debruçará sobre o contexto do surgimento do bloco voltado ao Pacífico.

Contexto histórico

Para entendermos a aparência meteórica da formação deste novo bloco, é importante situar a ascensão do recente ciclo de desenvolvimento da região, que tem como marco inicial a crise do chamado “Consenso de Washington”.

Tal consenso idealizou ainda no final da década de 1980 e na entrada da década de 1990, o equilíbrio fiscal como meta prioritária, de modo que, posteriormente, este traria o desenvolvimento da América Latina. O “Consenso de Washington” baseou-se em dez pontos: disciplina fiscal; priorização do gasto com saúde e educação; realização de uma reforma tributária; estabelecimento de taxas de juros positivas; apreciação e competição do câmbio para torná-lo competitivo; desmonte das barreiras tarifárias e paratarifárias para estabelecer políticas comerciais liberais; abertura ao investimento estrangeiro; privatização das empresas públicas; ampla desregulamentação da economia e proteção à propriedade privada (MARTINS, 2011, p. 318)[4]. Contudo, como a história demonstrou, esse ideário não alcançou seus objetivos e suas proposições, ao contrário, desembocou numa aguda crise econômica, política e social.

Com o fracasso destas medidas, há uma reorientação política sincrônica regional, na primeira década do século XXI, principalmente no “Cone Sul”, no qual sua maior expressão consiste na eleição de governantes de esquerda e centro-esquerda. Desde então, mais precisamente de 2003 a 2008, houve um crescimento econômico generalizado, através de uma maior participação do Estado. Neste período (2003-2008) o PIB per capita da dita América Latina aumentou de forma constante, subindo de US$ 4.522,00 para US$ 5.465,00, antes de oscilar devido ao choque da crise mundial[5].

Outro dado que vai nesta direção, se refere à flagrante diminuição da pobreza e da indigência regional. Segundo consta nos dados da “Comissão Econômica para a América Latina e Caribe” (CEPAL), desde 1980 a região enfrentava um crescente índice de pobreza, saindo de 136 milhões de pessoas em situação de pobreza, dentre as quais 62 milhões situadas na extrema pobreza, ou indigência, para 204 milhões no início da década de 1990, dentre as quais 95 milhões estavam na extrema pobreza. Em 1999 este número salta para 215 milhões de pobres com uma leve redução dos indigentes para 91 milhões. Em 2002 esse número chega ao auge da pauperização regional, com 225 milhões de pessoas em situação de pobreza, dentre as quais 99 milhões eram indigentes.

Após duas décadas seguidas de crescimento constante da pobreza, finalmente os índices começam a abaixar. Em 2009, este número diminui para 184 milhões de pobres e 73 milhões de indigentes, finalmente chegando a 167 milhões de pobres e 66 milhões de indigentes em 2012, como podemos observar no Gráfico 1[6] a seguir:

Gráfico 1: CEPAL.
Gráfico 1: CEPAL.

Estes dados quantitativos, principalmente os que vão até 2002, justificam a afirmação sobre a crise do “Consenso de Washington”, que culmina na referida reorientação política.

Os indicativos apresentados não só legitimaram internamente os novos governos, mas também criaram um ponto em comum nas relações entre estes governantes, de modo a influir numa reaproximação regional. Contudo, concomitantemente a este ganho de autonomia interna, observa-se de 2003 a 2008 um crescente superávit na balança comercial dos países da região, em um contexto em que os “Bancos Centrais” intervieram no mercado de câmbio, demonstrando sua preocupação com a valorização do câmbio real que, via de regra, prejudica as exportações. Aqui, cabe ressaltar, há um contraponto a um dos eixos da política macroeconômica neoliberal, conforme descreve Carlos Eduardo Martins (2011), no qual em um primeiro momento, nossa região é pautada por um regime cambial fixo ou semifixo, valorizado, e após as crises do final da década de 1990, se torna flutuante, mas sempre apreciado em relação ao dólar. De toda forma, estes fatores vão se refletir no aumento exponencial das reservas internacionais da região, diminuindo por consequência a vulnerabilidade externa diante de possíveis crises e contratempos econômicos, o que possibilita uma maior autonomia para as políticas externas.

No Gráfico 2[7], podemos notar que, enquanto as reservas internacionais cresceram, as dívidas externas de curto prazo se mantiveram estáveis:

Gráfico 2: Textos para discussão CEPAL – IPEA.
Gráfico 2: Textos para discussão CEPAL – IPEA.

Nesse momento, saindo da seara centrada fundamentalmente no livre-comércio, Marco Aurélio Garcia, assessor especial de relações internacionais do governo Lula e Dilma, ao se referir à integração, enfatiza uma reorientação para fatores materiais e imateriais (2013, p.57-58)[8]. Material, devido ao sentido das trocas comerciais em geral, recursos naturais, energéticos, etc., que influencia diretamente na questão econômica. A questão imaterial pode ser entendida desde o princípio histórico-ideológico, inspirado nos libertadores da nossa região – Simón Bolívar, José de San Martín etc. -, mas, indo além, englobando, por exemplo, a Democracia, entendida principalmente na perspectiva da inclusão social – muitas vezes ignorada em outras regiões “emergentes” – e a tendência pacífica regional, livre de armas de destruição em massa, onde eventuais conflitos por fronteira estão sendo resolvidos (ou poderão sê-lo) por arbitragem.

Esta reorientação gerida pelos novos governantes, como analisa José Luís Fiori (2007, p.231)[9], é crítica às políticas ditas neoliberais e ao também denominado pelos intelectuais de esquerda como intervencionismo “imperial” dos norte-americanos. Propõe um projeto político e econômico sul-americano que, contudo, não desconhece a relevância dos Estados Unidos para a região, tampouco propõe algum tipo de isolacionismoindigenista”.

De certo, esta nova postura foi na contramão dos interesses dos Estados Unidos na América do Sul e Central, interesses articulados em pautas político-econômicas que não encontravam mais respaldo imediato por um número crescente de Estados.  O fracasso do “Consenso de Washington”, o abandono do projeto da “Área de Livre Comércio das Américas” (ALCA) e o posicionamento favorável ao golpe militar na Venezuela, em 2002, foram expressões desta dificuldade que um novo momento impunha para a maior potência capitalista, conforme aponta Fiori, que vai mais além, afirma que os norte-americanos intervieram a favor do Golpe (FIORI, 2013, p. 37)[10].

Se acrescentarmos a estes pontos a recente ascensão chinesa na região, traduzida num incansável investimento econômico, pode-se dizer que os Estados Unidos perderam relativamente a sua influência, logo capacidade de sugerir comportamentos econômicos e políticos. Os sinais desta nova realidade são ilustrados por uma observação de Marco Aurélio Garcia (2013, p. 61), que aponta para a “IV Cúpula das Américas em Cartagena (2012), onde os norte-americanos se encontraram isolados em sua oposição à participação de Cuba na “Organização dos Estados Americanos” (OEA), de sorte que todos os demais países deixaram claro que aquela seria a última Cúpula sem a presença cubana.

Não obstante, a integração regional que a “América do Sul” e Central tiveram na última década foi marcada por uma multiplicação dos miniblocos regionais. Se o MERCOSUL voltou a ganhar foco com a integração da Venezuela e com as cartas de intenção para integrar Equador e Bolívia ao bloco, a região viu o surgimento da “União das Nações Sul-Americanas” (UNASUL)[11], que engloba os doze Estados da América do Sul. A criação da “Comunidade dos Estados Latinoamericanos e Caribenhos” (CELAC)[12], em fevereiro de 2010, e o surgimento da “Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América” (ALBA)[13], em 2004, são outros exemplos.

No bojo desta eclosão de miniblocos, em 2010, o então presidente do Peru, Alan García, propôs a formação da “Aliança do Pacífico”. Em realidade, Alan García se aproveita de outro movimento que vem ocorrendo desde 2002, por parte dos Estados Unidos, com o “Trade Act 2002”, no qual os “Tratados de Livre Comércio” passaram a ser fomentados de maneira intensiva pelos norte-americanos. De certo, este tipo de Tratado ganhou espaço em alguns países da região, justamente nesta primeira década do século XXI.

A ratificação do “Central American Free Trade Agreement” (CAFTA), em julho de 2005 e o próprio acordo bilateral entre “Estados Unidos” e Chile, em janeiro de 2004, são exemplos deste enfoque nos “Trade Acts[14]. Nesta linha, a “Aliança do Pacífico” se formaliza em junho de 2012, sendo ratificada por Sebastián Piñera, presidente do Chile; Ollanta Humala, presidente do Peru; Felipe Calderón, presidente do México, e Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia.

É importante observar as diferenças entre a “Aliança do Pacífico” e os outros Blocos do continente. Os governantes que se aproximaram para a criação desta aliança detêm posições ideológicas e partidárias identificadas ao propósito de livre comércio, que teve sua maior expressão regional representada no “North American Free Trade Agreement” (NAFTA)[15], bloco que o México é signatário. Ademais, estes governantes buscaram aprofundar o livre comércio com as grandes nações, se aproveitando de um contexto de crescente demanda por bens primários, aceitando de bom grado os conceitos das “Vantagens Comparativas”, de Adam Smith. Ou seja, analisando esta aproximação, nota-se que a “Aliança do Pacífico” realiza um movimento inverso daquele feito pelos governos de esquerda e centro-esquerda.

Ora, mas se anteriormente foi dito que houve um declínio relativo do poder de intervenção norte-americana na região, sendo demonstrado com dados que os novos governos de esquerda e centro-esquerda obtiveram sucesso em reduzir a pobreza regional, qual seria o motivo para a ascensão de um novo bloco regional, com objetivos inversos daquelas entidades existentes? Mais, a ascensão deste novo grupo representa necessariamente o esvaziamento do MERCOSUL e da UNASUL? Quais são os benefícios e/ou retrocessos que a Aliança do Pacífico trouxe e pode trazer para a região? E, por fim, fazendo um exercício de projeção, quais cenários podem se desenhar para as próximas décadas, levando em conta este bloco? Estes serão os desafios que precisam ser respondidos.

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Fontes consultadas:

[1] Ver: MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. São Paulo, BOITEMPO, 2005.

[2] Ver FIORI, José Luís. O “cisma do Pacífico”. São Paulo, Valor Econômico, 2012. Disponível em:

http://www.bresserpereira.org.br/terceiros/2013/janeiro/13.01.Cisma_do_Pac%C3%ADfico.pdf

[3] Ver “A matéria com o discurso do presidente colombiano Juan Manuel Santos está disponível”, em:

http://www.infolatam.com.br/2013/01/29/chile-peru-colombia-e-mexico-alianca-paifico-entram-em-acordo-para-liberar-seu-comercio/

[4] Ver: MARTINS, Carlos Eduardo. Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina. São Paulo, BOITEMPO, 2011.

[5] Os índices sobre o PIB per capita estão disponíveis em:

http://websie.eclac.cl/sisgen/GeneraGraficoFusionCharts_2_3.asp?DescripcionTema=Cuentas%20nacionales%20anuales%20en%20d%F3lares&DescripcionIndicador=Producto%20interno%20bruto%20(PIB)%20total%20anual%20por%20habitante%20a%20precios%20constantes%20en%20d%F3lares&idIndicador=2206&DisplayVersionIngles=false&UnidadMedida=D%F3lares%20por%20habitante&ClaveRotulosGrafico=542768085@1@177&TipoGrafico=GraficoLinea&checkgrafico=~@Am%E9rica%20Latina@4036.39902158362@4076.93571874103@4143.99168270274@4267.40509630361@4226.54424945343@4304.4606772487@4459.66240965823@4493.98347294424@4452.42577037473@4579.72156826458@4545.85455608892@4503.8755398881@4522.04003089693@4726.71662818348@4881.44044021516@5089.89087648338@5313.98647009708@5465.00854373426@5303.30890271671@5562.38909762701@5741.40969114358@

[6] Gráfico 1, disponível em:

http://www.cepal.org/prensa/noticias/comunicados/8/48458/grafico-evolucion-pobreza-indigencia-es.pdf

[7] Gráfico 2, Disponível em:

http://www.cepal.org/publicaciones/xml/0/42510/CEPAL_21_MIOLO.pdf

[8] Ver: GARCIA, Marco Aurélio. O Sentido da integração sul-americana para o Brasil. SADER, Emir (ORG). 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil. São Paulo, BOITEMPO, 2013.

[9] Ver: FIORI, José Luís. O Poder Global e A Nova Geopolítica das Nações. São Paulo, BOITEMPO, 2007.

[10] Ver: FIORI, José Luís. O Brasil e a América do Sul. SADER, Emir (ORG). 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil. São Paulo, BOITEMPO, 2013.

[11] Mais informações sobre a UNASUL estão disponíveis no site do Itamaraty:

http://www.itamaraty.gov.br/temas/america-do-sul-e-integracao-regional/unasul

[12] Mais informações sobre a CELAC estão no site do Itamaraty:

http://www.itamaraty.gov.br/temas/america-do-sul-e-integracao-regional/celac

[13] Mais informações sobre a ALBA estão disponíveis em:

http://www.alianzabolivariana.org/que_es_el_alba.php#ancla2

[14] Informações sobre o Trade Act, o CAFTA e o acordo bilateral entre Estados Unidos e Chile estão disponíveis em:

http://www.ajuris.org.br/attachments/article/1185/ACORDOS%20DE%20LIVRE%20COMERCIO.pdf

[15] Mais informações sobre o NAFTA estão disponíveis em:

http://www.nafta-sec-alena.org/sp/view.aspx?conID=590

“Oleoduto Keystone”: para além de interesses ambientais

O “Oleoduto Keystone” é um Projeto iniciado em 2010, cuja finalidade é acabar com a dependência de petróleo importado nos Estados Unidos. Com mais de 2.750 km de extensão, este projeto propõe unir a prospecção nos campos canadenses de areia de alcatrão (tar oil sands) em Alberta até as refinarias texanas no “Golfo do México” (“Estados Unidos”)[1].

A areia de alcatrão é uma fonte de extração de petróleo. Estima-se que o duto desta região poderá transportar em torno de 700 a 800 mil barris/dia de petróleo cru e a produção de 300 bilhões de barris de petróleo recuperado ao ano, reduzindo a importação nos “Estados Unidos[2]. Muito audacioso, este Projeto vem sendo criticado e defendido na mesma intensidade por políticos, grupos da sociedade civil organizada e, até mesmo, celebridades midiáticas[3].

Dentre os principais defensores estão o Governo canadense do primeiro-ministro Stephen Harper; a estatal petroleira canadense TransCanada, responsável pela construção do oleoduto; as refinarias do Texas e empresas petroleiras que buscam participar do Projeto[4]. Defendem, principalmente, a independência de importação de petróleo de regiões de instabilidade política como Nigéria, Venezuela e Arábia Saudita, além dos lucros retidos.

As críticas efusivas dos ambientalistas denunciam os principais impactos ambientais deste projeto. Elas pendem para os transtornos de possíveis vazamentos. A TransCanada sugere a utilização de dutos menos espessos para que haja maior pressão do óleo transportado. Isto aumenta a possibilidade de rompimento dos dutos[5].

Outros pontos negativos são os reflexos na vegetação local e na vida das comunidades próximas, principalmente a população indígena. O oleoduto passa por 150 comunidades indígenas só no Canadá e em 160 km de reservas indígenas nos Estados Unidos podendo transformar o relevo local e tal proposta põe em risco o curso de rios. Assim, a pesca passou a preocupar os indígenas, principal fonte de nutrição do grupo. Além disso, parte da região pela qual o duto passa é uma zona sísmica considerável e o mais recente terremoto atingiu 4.3 na escada Richter[6].

Outro argumento recorrente nesta disputa é quanto à emissão de gases na atmosfera. A emissão de gases de efeito estufa é de 12% a 17% maior comparados com a extração convencional de poços de petróleo. Tal argumento é confrontado pelos defensores do projeto (TransCanada) que afirmam que o oleoduto respeita o meio ambiente mais apropriadamente que a utilização convencional, feita por meio de caminhões[7].

Nesta disputa, uma figura emblemática se destaca. O ex-vice presidente norte-americano Al Gore critica efusivamente a proposta e a utilização de areias de alcatrão. Segundo ele, isto é um tipo de energia “suja” que traz mais prejuízos ao meio ambiente e o dinheiro gasto deveria ser utilizado na causa ambiental por meio de desenvolvimento de novas energias renováveis, ditas “limpas[8].

Outro fator importante é a independência petroleira dos Estados Unidos. A defesa de que os Estados Unidos não dependerão mais da importação de petróleo é questionada por não se tratar de uma defesa de produtividade, mas apenas de quem será seu principal país-fornecedor: Canadá, Venezuela ou Nigéria[9].

Desta forma, a busca pela autonomia energética por parte dos Estados Unidos não seria a justificativa mais plausível e sim as questões políticas. Junto com o seu vizinho do norte, os dois países compartilham a maior relação comercial do mundo[10], demonstrando que o conflito de interesses tem maior influência na balança comercial do que a disputa pela autonomia energética ou bangwagoning.

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Imagem (Fonte) :

http://i.huffpost.com/gen/995973/thumbs/o-CLIMATE-RALLY-WASHINGTON-facebook.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver TransCanada Corporation. ‘Gulf Coast Pipeline Project’”. Disponível em:

http://www.transcanada.com/gulf-coast-pipeline-project.html, acessado em 10 de maio de 2013.

[2] VerTransCanada Corporation. ‘Keystone Pipeline’”. Disponível em:

http://www.transcanada.com/100.html, acessado em 10 de maio de 2013.

[3] Ver Keystone Pipeline Rejected By Prominent Individuals”, Huffington Post. 23 de outubro de 2011. Disponível em:

http://www.huffingtonpost.com/2011/10/23/keystone-xl-pipeline-opponents_n_1000862.html#slide=more192385, acessado em 14 de maio de 2013.

[4] Ver Harper “disappointed” by Keystone pipeline delay”, CBC News. 13 de novembro de 2011. Disponível em:

http://www.cbc.ca/news/politics/story/2011/11/13/keystone-joe-oliver.html, acessado em 14 de maio de 2013.

[5] Ver Dembicki, Geoff. ‘Gulf Disaster Raises Alarms about Alberta to Texas Pipeline’. The Tyee. 21 de junho de 2010”, disponível em:

http://thetyee.ca/News/2010/06/21/AlbertaToTexasPipeline/, acessado em 10 de maio de 2013.

[6] Ver Anderson, Mitchell (2010-07-07). ‘Ed Stelmach’s Clumsy American Romance’. The Tyee. 7 de julho de 2010”, disponível em:

http://thetyee.ca/Opinion/2010/07/07/StelmachsClumsyRomance/, acessado em 10 de maio de 2013.

[7] Ver Tar Sands and the Carbon Numbers. The New York Times. 21 de agosto de 2011. Disponível em:

http://www.nytimes.com/2011/08/22/opinion/tar-sands-and-the-carbon-numbers.html?_r=0, acessado 11 de maio de 2013.

[8] Ver Al Gore DismissesEthical Oil’: ‘There’s Only Dirty Oil And Dirtier Oil’”. The Huffington Post Canada, 8 de maio de 2013. Disponível em:

http://www.huffingtonpost.ca/2013/05/08/al-gore-ethical-oil_n_3238937.html, acessado em 8 de maio de 2013.

[9] Ver Hussein, Yadullah. ‘Keystone ‘exaggerated rhetoric’ untrue’. Financial Post, 23 de setembro de 2011”, disponível em:

http://business.financialpost.com/2011/09/23/keystone-exaggerated-rhetoric-untrue-canada/?__lsa=8931-234a, acessado em 13 de maio de 2013.

[10] Ver Fergusson, Ian. ‘CRS Report for Congress’ 29 de janeiro de 2008”. Disponível em:

http://www.nationalaglawcenter.org/assets/crs/RL33087.pdf, acessado 12 de maio de 2013.

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Relação entre competitividade e intervenção estatal

No último dia 8 de abril morreu Margaret Thatcher, uma das figuras mais influentes na política britânica e mundial das últimas décadas. A “Dama de Ferro”, como era conhecida, foi primeira-ministra britânica por mais de dez anos (1979-1990). Seu governo foi marcado pela implantação de políticas que tinham como objetivo diminuir a influência direta do Estado na economia e na vida do cidadão comum[1].

As manifestações que se seguiram a sua morte foram as mais diversas, desde demonstrações de tristeza e respeito pelo seu legado, até comemorações de que a “a dama não iria mais voltar[2]. Essas reações, positivas ou negativas, só provam a importância da figura de Thatcher e reacendem a velha discussão sobre as vantagens e desvantagens da intervenção do Estado na economia.

As discussões sobre se a presença do Estado na economia é positiva ou negativa vêm se desenrolando entre os pensadores econômicos ao longo dos últimos dois séculos. De forma simplificada, do lado dos defensores do liberalismo econômico, a crença é que o Estado deve atuar de forma mínima na economia, uma vez que o mercado é governado por leis próprias (oferta e procura) e a influência de forças externas só tem como resultado o desequilíbrio do próprio mercado, prejudicando a todos os indivíduos, produtores e consumidores. A função básica do Estado, então, é garantir uma estrutura mínima para o funcionamento do mercado[3]. Já do lado dos defensores de uma presença mais assídua do Estado na economia, a crença é que o mercado não consegue funcionar de forma perfeita e por isso o governo precisa fazer-se presente como agente econômico, para garantir um funcionamento mais justo[4].

No mundo concreto, os Estados não são totalmente liberais em termos econômicos, no sentido de nunca interferir de alguma maneira na economia, ou possuem uma economia 100% estatizada. A experiência histórica demonstra que, mesmo nos países que se apresentaram como comunistas, houve, em algum momento, um espaço, ainda que pequeno, para o desenvolvimento de atividades privadas. Por sua vez, países considerados altamente liberais, como os EUA ou a própria Grã-Bretanha, realizam intervenções sucessivas na economia.

É o modo e a intensidade com que essas intervenções estatais são produzidas na economia que marca as diferenças entre os países e gera padrões competitivos distintos. De fato, um dos elementos que caracteriza o estado atual da concorrência internacional é a tensão que existe entre o padrão competitivo baseado nas estratégias dos países considerados como de “capitalismo maduro” e a estratégia dos países nos quais predomina o denominado “capitalismo estatal[5].

Conforme apontam os especialistas, nos países de “capitalismo maduro” as intervenções estatais geralmente possuem um caráter que visa propiciar um ganho competitivo para a economia em seu conjunto, são ações, por exemplo, pró-tecnologia e de inovação, reformas regulatórias nos mercados de capitais e políticas para ganhos de eficiência de certos segmentos.

Já nos países de “capitalismo estatal” as intervenções estatais geralmente possuem um caráter mais restrito para produzir um impacto mais direto e explícito sobre as decisões das empresas e outros atores do mercado. O próprio Estado tende a se apresentar como um agente econômico. Nesse caso, “o enfoque não está num maior ganho competitivo”, mas sim na alteração das condições de concorrência de forma mais específica e direcionada[6]. Países como a China, a Rússia e alguns países árabes seriam exemplos do modelo de capitalismo estatal, já os países* da “Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico” (OCDE) exemplificariam os de “capitalismo maduro”.

Observadores se dividem na avaliação sobre o melhor modelo. A dificuldade do Estado em controlar os fluxos de entrada e saídas de capital na economia nacional e a adesão dos países a normas e regimes internacionais de comércio e investimento, como por exemplo, a “Organização Mundial do Comércio” (OMC), restringe o alcance de políticas governamentais.

Em uma economia aberta, como em maior ou menor grau são as economias nacionais nos dias de hoje, é difícil prever os resultados das intervenções do Estado (considerando-se as mais variadas formas de intervenção), pois uma série de fatores sobre os quais não se tem nenhum controle influencia nos resultados econômicos.

Observando-se, no entanto, como os países que hoje são considerados emergentes fizeram para melhorar o seu patamar de crescimento econômico é possível perceber que eles só conseguiram alcançar um novo patamar porque foram capazes de criar, por meio de suas políticas, um mecanismo de controle. Nas palavras de Alicia Amsden, estudiosa de fenômenos de industrialização, esses países criaram “um conjunto de instituições que impõe disciplina ao comportamento da economia[7].

Parte dos analistas tende a buscar um meio termo e, ao entender o desenvolvimento econômico como um processo através do qual as atividades econômicas passam de um conjunto de ativos baseados em produtos primários (…) para um conjunto de ativos baseados no conhecimento[7]acreditam que ele só pode ser alcançado quando o Estado, por meio de suas políticas, atua para disciplinar e direcionar o mercado, não implicando isso diretamente em que o Estado deva ser visto como agente no mercado, ou seja como um dos competidores.

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Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Chile{a}, Coreia do Sul, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Hungria, Islândia, Irlanda, Israel, Itália, Japão, Luxemburgo, México{a}, Nova Zelândia, Noruega, Países Baixos, Polônia{a}, Portugal, Reino Unido, República Checa, Suécia, Suíça, Turquia{a}, USA.

{a} Países considerados pelo Banco Mundial como de Renda Media Alta

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Fontes Consultadas:

[1] Para mais informações sobre a vida e o legado político de Thatcher vale consultar “Freedom Fighter”, o artigo publicado na edição de 13 de abril de 2013 na revista “The Economist”, pode ser consultado no site:

http://www.economist.com/news/leaders/21576094-now-especially-world-needs-hold-fast-margaret-thatchers-principles-freedom-fighter

[2] A expressão “a dama não iria mais voltar” faz um trocadilho com a frase “a senhora não vai recuar”. Esta última foi dita por Thatcher em um discurso quando ela respondia a pedidos de moderação nas suas políticas, argumentando que não recuaria nas suas decisões. Para mais informações sobre as reações a sua morte consultar reportagem no site:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/04/britanicos-comemoram-nas-ruas-morte-de-margaret-thatcher.html

[3] Para conhecer mais argumentos sobre o liberalismo econômico indica-se a leitura de: SMITH, A. A riqueza das nações. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

[4] Para conhecer mais argumentos favoráveis a intervenção estatal indica-se a leitura de: CHANG, H. Chutando a Escada: a estratégia do desenvolvimento em perspectiva histórica. São Paulo: Editora UNESP, 2004.

[5] O argumento desenvolvido no paragrafo foi trabalhado por: SENNES, R.; MENDES, R. C. Políticas públicas e as multinacionais brasileiras. In: RAMSEY, J.; ALMEIDA, A. (org). A ascensão das multinacionais brasileiras: o grande salto de pesos pesados regionais a verdadeiras multinacionais. Rio de Janeiro: Elsevier. 2009.

[6] SENNES, R.; MENDES, R. C. Políticas públicas e as multinacionais brasileiras. In: RAMSEY, J.; ALMEIDA, A. (org). A ascensão das multinacionais brasileiras: o grande salto de pesos pesados regionais a verdadeiras multinacionais. Rio de Janeiro: Elsevier. 2009.

[7] AMSDEN, A. A ascensão do resto: os desafios ao ocidente com economias de industrialização tardia. UNESP: São Paulo, 2009.

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III Curso sobre Análise de Conjuntura em Política Internacional

FOLDER CURSO POL INTERNACIONAL

FOLDER CURSO POL INTERNACIONAL2A atual conjuntura global apresenta configuração que exige do homem contemporâneo conhecimentos sobre os elementos que compõem a natureza das relações internacionais e da política internacional, seja para posicionarem-se diante da realidade, seja para tratarem da formulação de estratégias em empresas, instituições públicas e instituições privadas que necessitam se relacionar com atores deste mundo do século XXI.

De posse desses instrumentos, poderão responder de maneira articulada, rápida e eficiente às questões advindas de um mundo globalizado, utilizando-se da metodologia de análise de conjuntura, bem como de outras, específicas da disciplina “Relações Internacionais”.

Objetivos do Curso:

Objetiva-se realizar a análise de conjuntura em Política Internacional, utilizando-se de alguns instrumentais teóricos das Relações Internacionais e da Teoria Política;

Apresentar metodologias e técnicas de análise de conjuntura que podem ser usadas por profissionais que necessitam desses conhecimentos para aprimoramento profissional;

Apresentar informações sobre as estratégias e políticas externas dos atores estatais;

Apresentar aulas expositivas sobre questões teóricas, exercitar a construção de cenários, discutir textos e material coletado semanalmente, compor análises com grupos de estudos constituídos pelos participantes do curso.

Público-Alvo:

Profissionais (juristas, professores, políticos, sociólogos, engenheiros, médicos, enfermeiros, cientistas políticos etc.) que atuam em ONGs, Organismos Internacionais, Fóruns Internacionais, Instituições Públicas, Instituições de Relações Exteriores e Comércio Exterior.

Profissionais que necessitam compreender a ciência Relações Internacionais, dominar os seus conceitos chaves e entender as explicações da ordem mundial para trabalharem na área, ou em aéreas correlatas.

Profissionais que necessitam conhecer metodologias das Relações Internacionais para auxiliar e/ou definir suas estratégias de negociação e negociação internacional.

PROGRAMAÇÃO: http://bit.ly/14burUK

PROFESSORES: Dr. Marcelo Suano e Prof. Thiago Babo

DATAS: 10, 12, 14, 17 e 19 de junho

HORÁRIO: 19h20 às 22h50

INVESTIMENTO

INSCRIÇÃO: R$ 50,00

CURSO: R$500,00 (Pagamento em até 12X por cartão de Crédito via PagSeguro. Até 3X por Boleto)

INSCRIÇÕES NO LINK: http://goo.gl/RvPKt

CERTIFICADO EMITIDO EM ATÉ 24HRS APÓS O TÉRMINO DO CURSO.

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Um olhar sobre “Obamacare”A glance on “Obamacare”

A “Patient Protection and Affordable Care Act” (PPACA), mais comumente conhecido como “Obamacare”, assinado em 23 de março de 2010 pelo “Presidente dos Estados Unidos”, Barack Obama, é um projeto que visa a reforma do sistema de saúde nos Estados Unidos e diminuir o número de cidadãos americanos sem seguro, proporcionando-lhes acessíveis opções de planos de saúde[1]. A fim de entender o “Obamacare” e seu funcionamento é importante em primeiro lugar ter uma visão geral do sistema de saúde estadunidense, que é composto por dois tipos de seguros-saúde, um público e um privado. O primeiro inclui “Medicare” e “Medicaid”, enquanto o último é dividido em “employer sponsor insurance” e “private non-group (mercado individual)“.

O “Medicare” é um programa federal que abrange pacientes de 65 anos de idade ou acima dessa idade, assim como pessoas que apresentem determinadas deficiências. O “Medicaid” é um programa financiado conjuntamente pelo governo federal e estadual destinado a indivíduos de baixa renda e indivíduos debilitados. Quanto ao “employer sponsor insurance”, a fonte principal do plano de saúde dos norte-americanos, os funcionários recebem seguro-saúde por meio de seu empregador e estes são geridos por empresas de seguros privados, já o “mercado individual”, também administrado por empresas de seguros privados, abrange indivíduos que são autônomos, aposentados ou incapazes de adquirir seguro-saúde por meio de seu empregador[2].

Em 2007, 15,3% dos cidadãos americanos não estavam segurados e, ainda mais alarmante, 43,8% dos não-cidadãos estadunidenses que viviam no país também não tinha seguro de saúde[3]. O objetivo principal do “Obamacare” é fornecer cuidados de saúde a indivíduos de renda média e baixa, reduzindo os preços do “exchange” de seguro-saúde federal e estadual. O plano de reforma do presidente Obama irá penalizar empregadores que tiverem mais de 50 funcionários empregados em tempo integral se esses não lhes oferecerem seguro-saúde de acordo com os padrões do “Obamacare”.

A reforma também pretende expandir o “Medicaid” para 15 milhões de norte-americanos de baixa renda que não tiverem seguro de saúde. Indivíduos que não obtiverem qualquer tipo de plano de saúde (privado, federal ou estadual) terão que pagar um imposto de 1% de sua renda total em 2014 e 2,5% em 2016. Como irá funcionar o “Obamacare”? Basicamente, os indivíduos poderão escolher entre manter o seu atual plano de saúde ou, a partir de outubro de 2013, terão acesso pela internet ao “Health Insurance Exchange Pool” (essencialmente um grupo de provedores de seguros), podendo assim escolher qual tipo de seguro-saúde é o mais adequado a suas necessidades e o mais atraente ao seu orçamento. Da mesma forma “a streamlined ‘one stop’ process will let you fill out one application to find out if you qualify for premium discounts, subsidies for out-of-pocket expenses, or coverage under programs such as Medicare or Medicaid[4].

Uma das críticas primordiais contra o “Obamacare” é que essa reforma poderia reduzir a oferta de trabalho. Bill Keller, do “New York Times”, observa, porém, que tal alegação é devido a um mal-entendido de um recente relatório do “Congressional Budget Office” (CBO) que menciona que a lei sob a “Affordable Care Act” (ACA), também conhecida como “individual mandate”, reduziria a ‘quantidade de trabalho utilizado na economia’ em cerca de oitocentos mil empregos”. Keller explica que ao contrário de acabar com empregos a Lei iria na verdade conceder novos postos de trabalho a pessoas desempregadas: “While some low-wage jobs might be lost, the C.B.O number mainly refers to workers who — being no longer so dependent on employers for their health-care safety net — may choose to retire earlier or work part time[5]. Outra forte crítica sobre a reforma de saúde do presidente Obama, expressada ferrenhamente pela “Federação Nacional das Empresas Independentes” (NFIB), é que o “Obamacare” prejudicaria empresas e seus negócios, considerando que os empregadores, agora obrigados a fornecer seguro de saúde para seus funcionários, veriam suas possibilidades de contratação limitadas[6]. Não obstante, “Obamacare” pode de fato ajudar as empresas, especialmente as menores, pois defende uma oferta de opções de seguros com custos mais baixos[7].

Em 28 de junho de 2012, a “Suprema Corte dos Estados Unidos” aprovou a lei de saúde proposta por Obama decidindo que a maioria dos cidadãos americanos obtenham seguro-saúde ou paguem impostos”. Embora a decisão do Tribunal represente um triunfo para o sistema de saúde nos Estados Unidos, a verdadeira vitória foi selada quando o Presidente foi reeleito para mais um mandato, em 6 de novembro de 2012[8]. A eleição do adversário Republicano, Mitt Romney, poderia ter significado um naufrágio do “Affordable Care Act” e um retrocesso ao sistema de saúde nos Estados Unidos. Assim, a aprovação do “Obamacare” representou um diferencial que decidiu as eleições estadunidenses em 2012. No momento já são evidentes os impactos da “ACA” e, de acordo com o “Departamento de Saúde e Serviços Humanos”, 31,1 milhões de norte-americanos, com idades entre 19 e 25, estão agora segurados. O relatório do “U.S Census Bureau” também revelou que o número de americanos sem seguro caiu em 2012 pela primeira vez em quatro anos[9].

Por outro lado, os lobbies” e grupos de interesse tem influência na maioria das esferas de decisão nos Estados Unidos e no caso do sistema de saúde não poderia ter sido diferente. 130 grupos opinaram na “Suprema Corte” em 28 de junho e pelo menos 16 desses grupos estavam envolvidos em “lobbies de legislação na área da saúde. Um dos grupos que apoiou a lei da reforma foi o “American Hospital Association” (AHA), gastando mais de 20 milhões de dólares em “lobbies em 2011.

Outro dos principais grupos que se opuseram à lei foi o “U.S Chamber of Commerce”, que, até 2012, gastou 62,2 milhões de dólares praticando “lobbying” em assuntos de legislação de saúde e outras questões no “Congresso Americano”. O “American Health Insurance Plans” (AHIP), a associação comercial que representa as companhias de seguros, investiu  9,7 milhões de dólares em “lobby neste ciclo de decisão. Its major interest in the court cases is severability. The group argues it was not the intent of Congress to have the law stand without the mandate”, explica Lindsay Young do “Sunlight Foundation Reporting Group”. A AHIP é uma cliente da “Akin Group”, firma de advocacia e “lobbying” que investiu apenas neste ciclo 25 milhões de dólares em nome de outras empresas clientes, que incluem a “General Electric” e a “Shell Oil[10].

Progresso e melhorias no sistema de saúde dos Estados Unidos não irão depender somente dos esforços de Barack Obama. Pressão emanada de influentes grupos de interesse, bem como outras variáveis políticas e econômicas, terão um papel fundamental em decidir o destino do sistema de saúde. Comparado com outros países desenvolvidos, os Estados Unidos ainda estão atrasados quando se trata de políticas relacionadas à saúde. O Canadá, por exemplo, tem um sistema de saúde nacional centralizado, onde cada província é responsável pela prestação de serviços de saúde adequados a sua população[11]. Ainda mais impressionante, por meio de um sistema de fundo de impostos, a Suécia oferece cuidados de saúde a todos os seus cidadãos e, no mesmo dia em que a “Suprema Corte dos Estados Unidos” apoiou a lei de reforma (ACA), o país escandinavo anunciou um Acordo que permitirá aos imigrantes ilegais terem plano de saúde subsidiado[12].

O êxito do programa “Obamacare” ainda é incerto. No momento, o debate contra ou a favorda reforma se manterá tendencioso e influenciado pelo partidarismo político. De acordo com a “American Academy of Family Physicians” (AAFP), em 2011, as despesas em saúde nos Estados Unidos totalizaram 17,9% do seu “Produto Interno Bruto” (PIB), somando 2,7 trilhões de dólares[13]. Portanto, negar aos cidadãos norte-americanos e aos indivíduos que residem nos Estados Unidos um programa de saúde acessível e confiável seria não apenas infundado como não-aconselhável.

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Imagem (Fonte):

http://www.cbsnews.com/8301-250_162-57575720/obamacares-3rd-anniversary-by-the-numbers/

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

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http://www.census.gov/hhes/www/hlthins/data/incpovhlth/2007/p60no235_table6.pdf

[4] Ver:

http://obamacarefacts.com/howdoes-obamacare-work.php

[5] Ver:

http://www.nytimes.com/2012/07/16/opinion/keller-five-obamacare-myths.html?pagewanted=all&_r=0

[6] Ver:

http://www.cnbc.com/id/100641995

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[8] Ver:

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[9] Ver:

http://money.cnn.com/2012/11/07/pf/health-care-reform-obama/index.html

[10] Ver:

http://reporting.sunlightfoundation.com/2012/health-care-lobbying-groups-take-supreme-court/

[11] Ver:

http://www.businessinsider.com/best-healthcare-systems-in-the-world-2012-6?op=1

[12] Ver:

http://www.businessinsider.com/illegal-immigrants-health-care-sweden-2012-6

[13] Ver:

http://www.aafp.org/online/en/home/publications/news/news-now/government-medicine/20130109hcspending.html

The “Patient Protection and Affordable Care Act” (PPACA), most commonly known as “Obamacare”, signed March 23rd 2010 by the “President of the United States”, Barack Obama, is a bill aimed to reform health care in the U.S and decrease the number of uninsured American citizens, providing them with affordable health-care plan options [1]. In order to understand “Obamacare” and its framework it is important at first to briefly glance at the U.S healthcare system which is comprised of both public and private insurance coverage, the former mainly by “Medicare” and “Medicaid”, while the latter is divided in “employer sponsor insurance” and “private non-group (individual market)”. “Medicare” is a federal program that covers patients of 65 years-old and up and also individuals with certain disabilities; “Medicaid” is a jointly funded federal and state program aimed for low income and also disabled individuals. In “employer sponsor insurance”, which happens to be the main source of American’s health insurance coverage, employees receive insurance through their employer and the healthcare plans are managed by private insurance companies whereas the “individual market”, also administered by private insurance companies, covers individuals who are self-employed, retired or who are unable to acquire insurance through their employer [2].

In 2007, 15.3% of American citizens were uninsured and an even more alarming, 43.8% of non-citizens living in the U.S also had no health insurance [3]. “Obamacare’s” chief goal is to provide healthcare for middle and low income class individuals by reducing the prices of federal and state run health insurance exchange. “President” Obama’s health care reform will penalize employers with over 50 full-time employees who do not offer them with adequate and Obamacare-like standard insurance. The reform also intends to expand “Medicaid” to 15 million uninsured low-income Americans. Individuals who do not obtain any type of health insurance plan (private, federal or state run) will have to pay a tax of 1% of their total income as of 2014 and 2.5% in 2016. How will “Obamacare” work? Basically like this: Americans will be able to choose between keeping their previous health insurance plan or, starting in October 2013, they will have access to an online “Health Insurance Exchange Pool” (essentially a group of insurance providers) where they can choose which type of insurance is the most appropriate for their needs and the most appealing to their budget. Also “a streamlined ‘one stop’ process will let you fill out one application to find out if you qualify for premium discounts, subsidies for out-of-pocket expenses, or coverage under programs such as Medicare or Medicaid[4].

One of the paramount critiques against “Obamacare” is that the reform could reduce the amount of jobs available to the working force. Bill Keller, from the “New York Times”, notes, however, that such claim is due to a misunderstanding of a “Congressional Budget Office” (CBO) report which says that the law under the “Affordable Care Act” (ACA), also known as the “individual mandate”, would “‘reduce the amount of labor used in the economy’ by about 800,000 jobs”. Keller explains that as opposed to “killing jobs” the law would actually clear space and grant new jobs to people who are in need of them: “While some low-wage jobs might be lost, the C.B.O number mainly refers to workers who — being no longer so dependent on employers for their health-care safety net — may choose to retire earlier or work part time” [5]. Another major appraisal on “President” Obama’s health reform, voiced strongly by the “National Federation of Independent Business” (NFIB), is that it could hurt businesses, considering that employers, now bound to provide health insurance to employees, would see their hiring arrays limited [6]. Notwithstanding, “Obamacare” might in fact help businesses, particularly smaller ones, as it advocates the provision of lower cost insurance options [7].

On June 28th 2012 the “United States’ Supreme Court” upheld “President” Obama’s healthcare law on “individual mandate” ruling that “most Americans obtain health insurance by 2014 or pay a tax”. Although the Court’s decision was a triumph for healthcare, the real victory was sealed when “President” Obama was reelected for another presidency term, November 6th 2012 [8]. The election of Republican opponent, Mitt Romney, could have meant a capsizing of the “Affordable Care Act” and, overall, a setback for healthcare in the U.S. Thus, the “Obamacare” approval was certainly a significant deal-breaker in the “2012 United States election”. On the one hand, the impacts of the “ACA” on health care access are already evident; according to the “Department of Health and Human Services”, 31.1 million Americans, ages 19 through 25, are now insured. A “U.S Census Bureau” report also revealed that the number of Americans without insurance fell in 2012 for the first time in four years [9].

On the other hand, “lobby groups” in the United States have leverage in most decision making realms, and for health care it could not have been any different. 130 parties filed briefs at the “Supreme Court” on June 28th and at least 16 of these parties have been involved in lobbying of health care legislation. One of the groups in support of the health care law was “The American Hospital Association” (AHA), having spent more than $20 million dollars on lobbying in 2011. One of the major groups opposing the law was the “U.S. Chamber of Commerce”, who has up until 2012, spent $62.2 lobbying on health care and other issues at the “United States Congress”. The “American Health Insurance Plans” (AHIP), the trade association that represents insurance companies, has spent $9.7 million dollars lobbying on this decision cycle. “Its major interest in the court cases is severability. The group argues it was not the intent of Congress to have the law stand without the mandate” explains Lindsay Young from the “Sunlight Foundation Reporting Group”. “AHIP” is a client for the legal and lobbying firm “Akin Group” which has lobbied in this cycle $25 million dollars for client companies that include “General Electric” and “Shell Oil” [10].

Clearly, it is safe to say that improvements on U.S health care system won’t rest solely on “President” Obama’s efforts; pressure from heavyweight interest groups as well as other political and economic variables will have a critical role on deciding whether the American health care system will have leeway for positive change or not. Compared to many other developed countries the U.S still lags behind when it comes to several health related policies. For instance, Canada has a centralized national health care system where each province is in charge of providing their population with adequate health services [11]. Even more impressively, through a tax payer fund system, Sweden is able to provide health care to all its citizens, and on the same day the “U.S Supreme Court” supported the “ACA” law, the Scandinavian country announced an agreement to allow illegal immigrants to receive subsidized health care [12]. Solid outcomes from “Obamacare” are yet to be seen; until then, the ongoing “for or against” debate on the “ACA” reform is most likely to remain biased and based on political partisanship. According to the “American Academy of Family Physicians” (AAFP), in 2011, the United States’ health expenditure totaled 17.9% of its “Gross National Product” (GDP), a sum of $2.7 trillion dollars [13]. Therefore, to deny Americans of an affordable and trustworthy health care system seems not only groundless, but ill-advised.

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Picture (Source):

http://www.cbsnews.com/8301-250_162-57575720/obamacares-3rd-anniversary-by-the-numbers/

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Sources consulted:

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[9] Read more:

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[10] Read more:

http://reporting.sunlightfoundation.com/2012/health-care-lobbying-groups-take-supreme-court/

[11] Read more:

http://www.businessinsider.com/best-healthcare-systems-in-the-world-2012-6?op=1

[12] Read more:

http://www.businessinsider.com/illegal-immigrants-health-care-sweden-2012-6

[13] Read more:

http://www.aafp.org/online/en/home/publications/news/news-now/government-medicine/20130109hcspending.html

 

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A Rivalidade futebolística identitária entre Brasil e Argentina

É fato consumado no mundo futebolístico que uma partida de futebol entre as seleções de Brasil e Argentina é considerada um clássico regional e mundial do desporto, tanto pela intensa garra envolvida nas disputas, como pela habilidade individual dos craques, pelo estilo de jogo das equipes e, principalmente, pelas estatísticas que demonstram o número alto de títulos conquistados pelas duas seleções nas competições internacionais.

Dentro deste universo, é importante explorar as representações que transformam o campo de futebol em campo de debate sobre as rivalidades entre as nações, assim como também abordar o surgimento e desenvolvimento do conceito de identidade diretamente coligado ao futebol, esporte que por vezes tem servido como uma ferramenta de política externa, veiculando uma imagem ou refletindo valores e ideias políticas de um Estado[1].

No terreno histórico são nações que igualmente emergem como tais no século XIX, a partir do expansionismo Europeu do século XV, sendo ambas exploradas e colonizadas até suas respectivas independências, na Argentina, em 9 de julho de 1816, e, no Brasil, em 7 de setembro de 1822. No século XIX, a introdução do futebol na Argentina pelos ingleses é praticamente contemporânea a sua regulamentação moderna na Inglaterra, em 1869[2], enquanto que a chegada ao Brasil data na ultima década desse século[3].

Brasil X Argentina
Brasil X Argentina

Apesar da diferença considerável de datas, é muito notável que, tanto na Argentina, como no Brasil, a construção da memória sobre o futebol esteja assentada nos mesmos eixos simbólicos e a observação do caso argentino, pode ser adequada e totalmente transferida para o caso brasileiro.

A criação do futebol nestes países resulta de construções muito complexas, onde as afirmações identitárias remetem a diferentes fontes tais como: migrações, bairros nas cidades, gerações e classes sociais, mas que tendem a reunir-se em duas interpolações básicas, em dois eixos de oposições: frente aos ingleses, (inventores, proprietários e administradores), de que resulta um mito de nacionalidade, e frente às classes hegemônicas (praticantes e consideradas opressoras), de que resulta um mito de origem – humilde[4].

No entrecruzamento destes dois eixos, como uma prática e um espaço semântico de qual se apropriam os “nacionais” versus os “ingleses”, e o “povo” versus a “elite”, se cria um primeiro espaço de distinção que permitirá que as criaturas enfrentem o criador, opondo-se numa nova criação. Esta novidade é o que ficou conhecido como “futebol arte”, classificação genericamente aceita tanto para o futebol argentino como para o futebol brasileiro, cuja definição contrastante a eles é o “futebol máquina”, ou “futebol força” epítetos que se consagraram para o futebol inglês e secundariamente para todo o futebol europeu.

O rendimento simbólico do futebol, como veículo para construção de versões sobre “o povo”, equiparado com a nação, reinventando uma versão romântica da nacionalidade, pode ser avaliado nas diferentes formas de transformação do futebol como operador da identidade nacional. Para autores como Campbell[5] e Alexander Wendt[6], a identidade tem um papel fundamental na determinação do comportamento e da relação entre os Estados. Assim, tem-se o pressuposto de que as identidades são vistas como um status imperativo, no sentido de que constituem um princípio de organização social.

Para a corrente construtivista, a identidade estatal assume um papel de maior preponderância, visto que o mundo e os próprios interesses dos atores seriam socialmente construídos e não naturalmente determinados. Segundo esta corrente, a identidade não precisa ser construída só através do antagonismo, mas também da aproximação positiva. Dessa forma, a identidade nacional está sendo constantemente produzida e reproduzida através do contato com aliados e inimigos. De posse da ideia de que agente e estrutura são co-constituídos, ou seja, ambos determinam um ao outro e nenhum tem precedência, acredita-se que são as “práticas de discurso” que permitem a representação do “mundo lá fora”. Essas representações discursivas do “outro” é que permitem as representações do “eu”.

Entretanto, para que esse processo de identificação ocorra é necessária à criação de “contrastes”, em outras palavras, um “outro”, com o qual “nós” possamos nos diferenciar. É o que LÉVI- STRAUSS[7] considera como “A identidade em seu aspecto relacional” onde se observa claramente que a questão do outro aparece como constitutiva da identidade. Sendo assim, a nação do “outro” também é reificada, como também a brasileira, passando a representar a totalidade de seus países. Dentro desses processos de construção de identidade interna e externa é que são construídas as identidades contrastivas[8]. A partir daí criam-se as rivalidades, pois, a utilização do “outro” como contraponto a ser superado, torna a derrota deste dentro de campo a afirmação da vitória da coletividade nacional do vencedor. Nesse contexto, o país vizinho representava o primeiro horizonte futebolístico a ser superado.

Na tentativa de superar o adversário, as equipes exploram suas potencialidades estéticas e sua capacidade de vencer o opositor através da habilidade. Essa habilidade é, de fato, resultado de um complexo e multifacetado processo no qual as representações coletivas nacionais identitárias desempenham um papel fundamental. Os trabalhos comparativos entre a maneira de se jogar futebol da Argentina e do Brasil partem de um pano de fundo: a Argentina seria mais europeizada e o Brasil teria uma importante influência africana, sobretudo no campo das práticas corporais. A Argentina aparece como penetrada pela razão ocidental, até pela vigência de uma escola de massas ou universal constituída bem mais cedo que a brasileira e cujo objetivo seria o de europeizar a população. O Brasil teria permanecido num ambiente mais tropical, mulato e dançarino. Temos então uma Argentina mais letrada e de razão instrumental mais desenvolvida, talvez mais padronizada e esquematizada que absorveu e faz circular a imagem de um Brasil exótico, malandro e menos tático.

Em meio ao processo de naturalização destes estilos, na forma pela qual se compreendem as habilidades e capacidades valorizadas como “produto”, material resultante de um povo e de uma história, podem ser registradas as clivagens maiores entre o modelo argentino e o modelo brasileiro.

São duas narrativas de hibridação e mistura que, porém, buscam pontuar as diferenças que foram tecidas no desenvolvimento dos dois modos de jogo que procuram representar as identidades próprias. Essas diferenças se situam, sobretudo, nos elementos “étnicos” que estão embutidos na base de composição destes povos. De um lado da fronteira constam principalmente elementos italianos, espanhóis e gaúchos; do outro, índios, negros e brancos.

Imbuídos desde os primórdios desse clima de acirramento de identidades, na primeira vez que as seleções do Brasil e da Argentina se enfrentaram em 1914 a opinião pública encarou o evento como o momento decisivo da afirmação nacional, visto o poder simbólico da disputa. Tentando extrair proveito positivo da disputa, ainda nesse ano o embaixador argentino Júlio Rocca envia ao governo brasileiro uma proposta para a criação de uma competição futebolística com o objetivo de estabelecer um motivo de relações amistosas e propósitos comuns entre os dois países [9].

Cronologicamente, outros episódios foram marcantes negativamente no período de início da rivalidade futebolística identitária. Destaca-se o ano de 1920, quando a seleção brasileira que disputara a Copa Sul-Americana” no Chile, passou por Buenos Aires. Nesta ocasião, um jornal local publicou um artigo, acompanhado de caricaturas, que chamava os brasileiros de “macaquitos[10]. Já em 1921, o presidente Epitácio Pessoa chegou a impedir a seleção brasileira de utilizar jogadores negros na outra disputa do “Campeonato Sul-Americano” ocorrida naquele ano. Isso porque o campeonato seria sediado na Argentina e o presidente temia que os jogadores negros brasileiros fossem alvo de racismo, o que desgastaria a imagem do Brasil[11]. Mais do que isso, Epitácio Pessoa alegou que pretendia resguardar a identidade do negro brasileiro e até evitar um problema diplomático entre Brasil e Argentina.

Após todas essas confusões, durante um jogo entre Brasil e Argentina, o “Ministério das Relações Exteriores do Brasil” concluiu que o futebol não mais aproximava os povos e recomendou que a seleção brasileira não mais competisse nos torneios sul-americanos. Dessa forma, o Brasil não participou de nenhum jogo entre 1926 e 1929 e não enfrentou a seleção argentina até 1936.

Confrontos diretos a parte, de que outra forma poderiam se expressar as diferenças presentes nos respectivos estilos que para seus povos representavam um todo? A manifestação e atualização deste todo se constitui pela disputa entre si, de quem era o privilégio da posse da habilidade natural do jogo. A valorização da exibição da corporalidade no desempenho individual e no exercício sempre surpreendente do drible, da capacidade de invenção e improvisação como opositores da força, deram origem ao conceito de jogadores craques, que em vários casos foram os heróis nacionais dessas narrativas.

Sem sobra de dúvida, este foi e é mais um combustível da  maior da rivalidade exacerbada no futebol. Atribui-se ao jornalismo esportivo um papel fundamental na popularização do esporte, o que veio corroborar com a construção das identidades, por exemplo, acirrando a rivalidade entre os valores de pertencimento nacionais e locais e das figuras dos jogadores heróis como defensores da pátria. Ao analisar os discursos da mídia em relação às seleções brasileira e argentina de futebol, conclui-se que foi através da imprensa que houve a legitimação da imagem de um estilo de jogo particular para cada uma dessas seleções, criando estereótipos e valores a serem defendidos por elas e seus jogadores.

O caso mais claro disso é a disputa entre os jogadores Maradona e Pelé, que, até a Copa do Mundo de 1982, não contavam com nenhuma reportagem comparativa nos jornais dos dois países. Foi ao final do Mundial vencido pela Argentina, em 1986, na edição de 24/06/1986 da revista “El Gráfico” que se observa pela primeira vez uma comparação. A revista publica uma reportagem com o título: “Nace una polémica que no morirá jamás: Maradona fue más para Argentina que Pelé para Brasil[12]. A revista trabalha a partir do pressuposto de que o Brasil teria conquistado o tricampeonato em 1970 sem Pelé e a Argentina não teria conquistado o Mundial de 1986 sem Maradona.

Em 1990, o encantamento pelo futebol de Maradona aparece já marcado pelo confronto jornalístico sobre o futebol de ambos os países, misturando-se com a visão de que os argentinos são “catimbeiros” e “violentos”. A “catimba” quando feita por brasileiros é narrada no Brasil como “malandragem”, como algo positivo, mas para falar da “catimba” dos argentinos o tom é moralista, como “deslealdade”. Este pano de fundo de disputa de ícones também é considerado estratégia válida para criação e análise da dinâmica de construção das identidades na Argentina e no Brasil por meio de seus heróis futebolísticos.

Na realidade, o futebol, por si só, não é exatamente uma máquina de nacionalidade contemporânea. Essa máquina é impulsionada essencialmente pela mídia. Em outras palavras, futebol é somente um de seus gêneros, ainda que seja o mais bem-sucedido. Não é à toa que temos hoje uma cobertura midiática, sistemática e cotidiana do espetáculo chamado futebol, transmitido simultaneamente por vários canais de comunicação 24 horas por dia, concentrando a maior atenção cultural, publicitária, de audiência e tempo de transmissão.

Considerando que o futebol, tanto na Argentina como no Brasil, representa um esporte com milhões de seguidores que se sentem identificados em suas culturas e, por consequência, conformam um espetáculo esportivo que gera milhões de dólares ao ano a escala mundial[13], observa-se que a criação de um “outro” argentino, opositor do brasileiro, ajudou a consolidar a própria identidade brasileira.

Assim, o futebol e os 5 títulos mundiais brasileiros e 2 títulos mundiais argentinos[14]  fizeram mais do que fomentar rivalidades esportivas. Reproduziu e alimentou rivalidades de afirmações identitárias entre os Estados, que situam no esporte uma espécie de reduto do nacionalismo moderno, particularmente em função da possibilidade de materializar a nação em uma equipe, a qual passa a ser uma expressão da luta nacional, estreitando os caminhos para o processo de identificação e mostrando que o futebol é, muitas vezes, mais que um esporte, é uma metáfora de um país. É veículo de identidade e valores, mostrando-se como uma arena de afirmação nacional, regional e mundial.

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Imagem (Fonte – Extraído em 03/05/2013 ás 17h33min):

http://esportes.terra.com.br/futebol/copa-2014/mano-se-defende-quotninguem-no-mundo-achou-solucao-contra-messiquot,4c7f1d81c499a310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.ppgri.uerj.br/form/Futebol_identidade_e_as_relacoes_Brasil_Argentina_Beatriz_Carvalho_site.pdf, acessado em 17 de abril 2013.

[2] Ver:

ARCHETTI, E. Masculinities: football, polo and the tango in Argentina. Oxford, Editora: Berg, 1999.

[3] Ver:

CALDAS, Waldenyr. O Pontapé Inicial. Memória do futebol brasileiro 1894-1933. São Paulo, Editora: Ibrasa, 1990.

[4] Ver:

ALABARCES, Pablo. Fútbol y academia: recorrido de un desencuentro”. In: Alabarces, Di Giano e Frydenberg (compiladores), Deporte y Sociedad. Buenos Aires, Editora: Eudeba. 1998.

[5] Ver:

CAMPBELL, David. Writing Security: United States foreign policy and the politics of identity. Minneapolis, Editora: University of Minnesota Press, 1998.

[6] Ver:

WENDT, Alexander. Structure, agency and culture. In: Social Theory of International Politics. Cambridge, Editora: Cambridge University Press, 1999.

[7] Ver:

LÉVI-STRAUSS, C. La identidad. Madrid, Editora: Petrel, Pág. 15, 1981.

[8] Ver:

GUEDES, Simoni Lahud. O Brasil no campo do futebol: Estudos antropológicos sobre os significados do futebol brasileiro. 1ª Edição. Niterói, Editora: EdUff, 1998.

[9] Ver:

AGOSTINO, Gilberto. Vencer ou Morrer: Futebol, Geopolítica e Identidade Nacional. Rio de Janeiro, Editora Mauá, 2002.

[10] Ver:

ALABARCES, Pablo; CONDE, Mariana y DODARO, Christian. Hinchadas. Buenos Aires, Editora: Prometeo Libros, 2005.

Ver também:

FRANZINE, Fábio. As Raízes do País do Futebol. Estudo sobre a relação entre o futebol e a nacionalidade brasileira 1919-1950. Tese de Mestrado em Historia Social. Universidade de São Paulo, 2000.

[11] Ver:

AGOSTINO, Gilberto. Vencer ou Morrer: Futebol, Geopolítica e Identidade Nacional. Rio de Janeiro, Editora Mauá, 2002.

[12]Ver:

“Nasce uma polemica que não morrerá jamais: Maradona foi mais para a Argentina do que Pelé para o Brasil”.

[13] Ver:

ALABARCES, Pablo; CONDE, Mariana y DODARO, Christian. Hinchadas. Buenos Aires, Editora: Prometeo Libros, 2005.

[14] Para maiores estatísticas do confronto, verificar informações disponíveis em:

http://pt.fifa.com/worldfootball/statisticsandrecords/headtohead/team1=bra/team2=arg/index.html

 

Mali: os desafios após a “Intervenção Francesa”

O Mali, país do oeste africano, de maioria muçulmana, multiétnico e democrático, localiza-se no Sahel. A região é conhecida pela pobreza, pela instabilidade política e pela porosidade de suas fronteiras, entre as quais se deslocam com alguma liberdade grupos radicais islâmicos, sequestradores e traficantes de armas, drogas e pessoas. As turbulências políticas enfrentadas no norte da África durante a “Primavera Árabe”, em 2011, contribuíram para desestabilizar ainda mais o Sahel. Por isso, a partir de 2012, o Mali se viu engolfado em uma crise interna ainda longe de solução.

A queda do regime de Muammar Qadafi levou uma grande parcela dos mercenários que combateram a seu favor a deixar a Líbia, retornando para seus países de origem com poderosos arsenais antes pertencentes ao antigo ditador[1]. Muitos deles eram da etnia tuaregue, nômades originários da região norte do Mali e suas proximidades, e com uma história de rebeliões contra Bamako, capital do país localizada no sul. Continuar a lerMali: os desafios após a “Intervenção Francesa”