ABC das mulheres?

No ano de 1974, por ocasião da morte de seu marido e então presidente argentino Juan Domingo Perón, Maria Estela Martínez Perón [1] se tornaria a primeira mulher a assumir a Presidência da República da Argentina e de um país sul americano.

Aparentemente, Isabelita, como costumavam chamá-la, se constituiria num símbolo da conquista de espaço das mulheres na sociedade e uma prova do avanço democrático na Argentina e na América do Sul em geral, se não fosse o “Golpe de Estado” dois anos mais tarde, em março de 1976, que desconstruiria todas as conquistas logradas até então.

Em realidade, a Argentina sentiria a extensão de Governos Militares que já alcançavam o Brasil (1964), a Bolívia (1964), o Chile (1973) e o Uruguai (1973) em seus respectivos regimes autoritários, destacando-se que seria um período complexo para um continente historicamente explorado pelas metrópoles ibéricas e posteriormente colocados como apoio às economias capitalistas mais desenvolvidas, as quais, pela configuração da economia internacional daquele período, tornavam os países latino-americanos subalternos e dependentes.

Diversos países da região viveram simultaneamente um regime autoritário, configurados principalmente pela militarização do Estado em maior e menor grau, nos quais as Forças Armadas assumiram os papeis de dirigentes políticos. 

Este foi o caso chileno, país que desde o recrudescimento do governo militar no Brasil, em 1968, com o “Ato Institucional Número 5” (AI-5), se destacou por abrigar inúmeros perseguidos políticos brasileiros.

Do dia 4 de setembro de 1970, com a eleição de Salvador Allende, até o bombardeio no “Palácio Presidencial La Moneda”, em 11 de setembro de 1973, o Chile viveu uma experiência de trânsito institucional para o socialismo, no qual se destacavam ações de nacionalizações que afetaram o sistema de produção capitalista, sem, no entanto, o governo realizar maiores transformações no modelo de Estado vigente.

Se por um lado este país vivia uma experiência inédita na região, por outro, os segmentos afetados[2] viam seus interesses se desmanchar progressivamente, de modo que a sensação da fatalidade de um golpe era real e coletiva.  A partir do bombardeio em “La Moneda”, iniciou-se a experiência autoritária chilena, com concreto viés ditatorial, que teve o general Augusto Pinochet como principal líder e contou com o apoio de segmentos da sociedade (uma parcela da classe média, da mídia e dos empresários) e de intelectuais ligados à Escola de Chicago.

O país, ao lado da Bolívia, se transformaria no palco das experiências que foram denominadas por alguns intérpretes como neoliberais, no qual de 1975 a 1990 se teria um sistema de mercado apoiado numa repressão política[3].

Fruto deste enredo, surge a segunda grande personagem a assumir uma Presidência da República na América do Sul e a primeira no Chile: Michelle Bachelet[4]. Nascida em Santiago (Chile), em 1951, foi desde cedo uma estudante ativista que se acostumou a atuar de forma diferenciada e a quebrar barreiras culturais.

Militou na “Juventude Socialista” no governo Allende, lutou contra a ditadura militar que se instaurou em seu país e viu seu pai morrer em decorrência de torturas, segundo denúncias e relatos históricos de pesquisadores. De acordo com os testemunhos, em 1975, a própria Bachelet e sua mãe também foram presas e torturadas.

Fugindo do país, exilou-se primeiro na Austrália e depois na Alemanha, onde estudou medicina para se tornar pediatra. Após a redemocratização do Chile, atuou como Ministra da Saúde e da Defesa Nacional no governo de Ricardo Lagos e, finalmente, em 2006 foi eleita para a Presidência, com 53,51% de votos no segundo turno.

Michelle Bachelet, mãe divorciada que cuidava de três filhos, criou grandes expectativas desde o período eleitoral com um discurso incisivo que privilegiava as camadas pobres e enfatizava o caráter de um governo que se anunciava como popular, e não populista. Após o mandato, deixou o cargo com uma aprovação recorde de 84%, gabaritando-a para assumir, em setembro de 2010, a Diretoria Executiva da “Organização das Nações Unidas para Mulheres” (ONU Mulheres).

Um ano após a eleição da mandatária chilena, os argentinos elegeram a então senadora e primeira-dama, Cristina Fernández de Kirchner [5], como a segunda mulher presidente no país. Seguindo os passos de Maria Estela Perón, Cristina logrou angariar a popularidade de seu marido e presidente Néstor Carlos Kirchner, que contava com 70% de aprovação. Nascida em 1953, na Cidade da Prata (Província de Buenos Aires), formou-se em direito na “Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais da Universidade Nacional de La Plata”. Iniciou sua militância política na “Frente de Agrupaciones Eva Perón” (FAEP) e posteriormente militou na “Juventude Universitaria Peronista” (JUO), onde conheceu seu marido Néstor Kirchner. Definitivamente, a esta altura, o Cone Sul caminhava a passos largos para consolidar o conceito de igualdade de gênero, como um princípio que poderia se alcançado.

Em outubro de 2010 foi a vez de o Brasil dar um passo decisivo nesta direção. A então Ministra da Casa Civil, Dilma Vana Rousseff [6] tornava-se a primeira mulher brasileira eleita Presidenta (como ela pede para ser chamada) do Brasil, ao ganhar as eleições no segundo turno contra o candidato do “Partido da Social Democracia Brasileira” (PSDB), José Serra.

Dilma nasceu em 1947, em Belo Horizonte, com raízes de uma família de classe média, em que o pai era imigrante búlgaro e a mãe nascida no Estado do Rio de Janeiro. Conforme apontam os relatos de pesquisadores, era uma estudante dedicada e veio a se interessar pelas ideias socialistas (assim como sua colega chilena), ingressando, no período do governo militar brasileiro, na luta armada por movimentos revolucionários como o “Comando de Libertação Nacional” (COLINA) e a “Vanguarda Armada Revolucionária Palmares” (VAR-Palmares).  

Condenada em 1970 por subversão, Dilma foi presa por dois anos em São Paulo e, de acordo com os relatos apresentados por ela e seus parceiros de militância, foi vítima de torturas. Posteriormente, muda-se para Porto Alegre, onde se formou em economia e ajudou na fundação do “Partido Democrático Trabalhista” (PDT).

Quando trocou de partido e ingressou no “Partido dos Trabalhadores” (PT), Dilma Rousseff começou a ganhar espaço na gestão do então presidente Luis Inácio Lula da Silva, até o ponto de ser indicada por ele como sua sucessora, apesar das disputas internas que havia e das desaprovações a sua indicação.

Quando assume a Presidência, em janeiro de 2011, Dilma demonstra toda a importância da vizinha Argentina para a política externa do Brasil, ao dedicar a primeira viagem externa à “companheira” Cristina Kirchner. A esta altura, Michelle Bachelet não exercia mais o cargo, com o qual as colegas argentinas e brasileiras seriam as únicas na América do Sul. Dilma chegou a encontrar Bachellet em um evento da “Organização Internacional do Trabalho” (OIT) em dezembro de 2011, quando recebeu um relatório das mãos da chilena sobre o “Piso de Proteção Social para uma Globalização Equitativa e Inclusiva”.

Finalmente, 2013 pode ser o ano de encontro de Cristina Kirchner, Michelle Bachelet e Dilma Rousseff como presidentes de três das maiores nações latino-americanas. No dia 15 de março, Bachelet renunciou seu cargo na “Organização das Nações Unidas” (ONU), e no dia 27 do mesmo mês confirmou sua participação nas eleições que ocorrerão em novembro de 2013[7] para sucessão do atual presidente Sebastián Piñera.

Apesar das primeiras pesquisas de intenção de votos darem um amplo favorecimento à ex-presidente, Michelle terá que saber lidar com alguns desafios que já surgem em seu horizonte.  Além da disputa eleitoral com os demais candidatos, outra questão que surge é a divisão que ocorre neste momento no seio do Movimento Estudantil Chileno.

O movimento, que nos últimos anos ganhou notoriedade e influência na sociedade chilena, sob a liderança de Camila Vallejos[8] (a líder estudantil anunciou que será candidata à deputada pelo “Partido Comunista De Chile”), hoje encontra-se dividido. Ele está segregado em frentes que tem visões distintas sobre o processo eleitoral. Enquanto os líderes das primeiras marchas daquela recente “primavera estudantil” anunciam candidaturas ao Congresso por diferentes legendas partidárias, os atuais líderes defendem uma independência que possibilitaria cobrar todos os candidatos de maneira igual e, por último, os estudantes secundaristas que defendem a abstenção massiva para forçar uma “Assembleia Constituinte”.

A polêmica ainda envolve o “Partido Comunista”, de Vallejos, que pretende participar das primárias da “Concertação” (coalizão de centro-esquerda, na qual Bachelet é integrante), grupo este que governou o Chile de 1990 até 2009 e contribuiu (ou não reverteu) com aquilo que parte expressiva dos estudantes e intérpretes da esquerda chamam de mercantilização do sistema educacional chileno, tema que ocasionou as principais críticas contra o atual governo e desencadeou as manifestações do movimento supracitado.

De todo modo, se confirmados os resultados das últimas pesquisas[9], a eleição de Michelle Bachelet desenharia um cenário inédito no Cone Sul, no qual haverá a atuação concomitante de três mulheres identificadas com a militância socialista.

Indiretamente, poderia influenciar na emancipação das mulheres, especialmente as pobres e periféricas pelo continente, destacando-se que estudos mostram que, independente de classes sociais,  a grande maioria das mulheres economicamente ativas ainda estão em desvantagem quando comparadas com os homens.

Com efeito, em um momento em que a crise internacional dá sinais de oscilação, resta saber se Bachelet cambiaria o enfoque político que prioriza uma estratégia voltada para o Pacífico, representado na “Aliança do Pacífico[10](compõem o bloco: Chile, Colômbia, México e Peru), para uma reorientação ao Atlântico, juntamente com os principais países do Cone Sul, estreitando os laços com o “Mercado Comum do Sul” (MERCOSUL).

Um estreitamento nas relações entre estas três potências locais, certamente teria o respaldo de Joaquim Nabuco que, em março de 1904, em Roma, quando do litígio entre Brasil e Grã-Bretanha, afirmou: “tanto quanto possível, o Brasil, a Argentina e o Chile (deviam) apoiar-se sempre reciprocamente[11].

Entre encontros e desencontros, talvez “as mulheres do ABC”, em novo contexto, convirjam para ajudar a superar as amarras do subdesenvolvimento do sub-continente latino-americano.

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Imagem (Fonte):

http://www.latina.com/lifestyle/news-politics/rise-women-power-latin-america

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Fontes consultadas:

[1] Ver Informações mais amplas de Maria Estela Martínez Perón podem ser encontradas em:

SADER, Emir; JINKINGS, Ivana. (Orgs.) Latinoamericana: enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe. São Paulo, Boitempo; Rio de Janeiro, Laboratório de Políticas Públicas da UERJ, 2006.

[2] Ver:

MARX, Karl. Manifesto Comunista. São Paulo, Boitempo, 2010.

[3] Uma descrição do período ditatorial chileno é encontrada em:

SADER, Emir; JINKINGS, Ivana. (Orgs.) Latinoamericana: enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe. São Paulo, Boitempo; Rio de Janeiro, Laboratório de Políticas Públicas da UERJ, 2006.

[4] Uma pesquisa sobre a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet foi realizada pelaBerkley Review of Latin American Studies”, disponível em:

http://clas.berkeley.edu/Publications/Review/Fall2011/pdf/BRLASFall2011-Manz.pdf

[5] Ver:

MOCHKOFSKY, Graciela. Pecado Original: Clarín, Los Kirchner y La Lucha por El Poder. Buenos Aires, Planeta, 2011.

Mais informações sobre Cristina Kirchner também estão disponíveis no site oficial da presidência, disponível em:

http://www.presidencia.gob.ar/la-presidenta/biografia

[6] Ver:

AMARAL, Ricardo Batista. A vida quer é Coragem: A trajetória de Dilma Rousseff, a primeira presidenta do Brasil. Rio de Janeiro, Editora Sextante, 2011.

[7] Uma análise conjuntural da renúncia de Michelle Bachelet ao cargo de Diretora Executiva da ONU Mulheres e o seu anúncio como candidata a presidência do Chile noThe Economistestá disponível em:

http://www.economist.com/news/americas/21575806-not-quite-shoo-she-looks-bachelet-back?zid=309&ah=80dcf288b8561b012f603b9fd9577f0e

[8] Uma descrição sobre a líder do movimento estudantil, Camila Vallejos, e seu anúncio de candidatura, bem como a divisão do movimento estudantil chileno (uma das forças sociais de maior expressão no contexto do Chile dos últimos anos) está disponível em:

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/28058/em+ano+eleitoral+movimento+estudantil+chileno+se+divide+sobre+apoio+a+ex-lideres.shtml

[9] Pesquisa de intenção de voto para a eleição do Chile, disponível em:

http://www.eleccionespresidenciales-2013.cl/2013/02/primarias-presidenciales-oficialistas-y.html

[10] Para uma análise sobre aAliança do Pacíficoe seu contexto, ler o artigo de José Luís Fiori, disponível em:

http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5945

[11] Ver:

BUENO, Clodoaldo. Política Externa da Primeira República: Os anos de apogeu (de 1902 a 1918). São Paulo, Paz e Terra, 2003.

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