A escolha de Netanyahu

Escrito Por Ricardo Varnier

Nas eleições legislativas israelenses de  22 Janeiro de 2013, o partido Likud obteve a maioria dos votos mas não foi o vencedor. Vários observadores apontam que, em realidade, ele teve uma perda, pois diminuiu o número de cadeiras no Parlamento israelense (o Knesset), causado em especial graças ao significativo comparecimento de eleitores jovens e das grandes cidades litorâneas (Haifa e “Tel Aviv”), que são menos religiosas e em geral votam nos partidos de centro ou mais à esquerda. Apontam ainda a importante participação dos cidadãos origem árabe, que, extra-oficialmente, foram convocados pelos países árabes para ajudar os seus representantes.

Esse grande comparecimento de eleitores laicos e árabes (aproximadamente o dobro do ocorrido na eleição anterior) representou a perda de 20% das cadeiras para o Likud e mais um percentual similar, senão maior, para os partidos ultra-religiosos.

Beniamin (Bibi) Netanyahu foi militar, como a maioria dos ex-primeiros-ministros do país. Apresenta-se como nacionalista, expansionista, sionista e não religioso, postura típica dos seguidores de Jabotinsky [1]. Ele foi herói de guerra, comandando uma unidade de elite, similar aquela em que serviu seu irmão Jonatan, o comandante da “Operação Trovão” (Thunderbolt) que libertou os judeus sequestrados em Entebe (04/07/1976). Complementando seu perfil, os analistas também o avaliam como um home pragmático.

Enquanto não acabar o atual mandato, ele ainda tem como base de apoio os partidos religiosos. Com o resultado obtido no dia 22 de janeiro, ele ainda poderá ter a maioria com esses partidos, mas isso se dará por apenas um voto, trazendo muita insegurança, principalmente pelo fato de esses partidos não terem a fidelidade como premissa de conduta em relação ao Governo, sobrando então o líder centrista Yair Lapid, do partido “Yesh Atid” (“Há Futuro”, em português), que com seus votos garantiria uma folgada maioria, tal qual Netanyahu vem tendo nesta atual legislatura.

Entretanto contar com Lapid significa afrontar alguns dogmas que os partidos religiosos não gostariam de abrir mão para compor com esta liderança em apoio a atual Primeiro-Ministro: (1) serviço militar para todos (religiosos que se dedicam exclusivamente ao estudo das Escrituras, estão isentos); (2)escola pública igualitária (com religiosos e laicos, a exceção ficaria para as escolas religiosas particulares que têm suas regras e adotam segregações); (3)direitos às minorias (gays, árabes, judeus etíopes etc.) e (4) acabar com a implantação de novos assentamentos na área E-1 (grande Jerusalém, incluindo Maale Adunim, nos territórios palestinos). Deve-se destacar ainda um aspecto que afeta diretamente essa última questão: Lapid também demanda a pasta da Habitação, a responsável pelas expansões nas áreas palestinas.

A alternativa de Netanyahu é conciliar Lapid (que sozinho com seus aliados não dá a maioria ao Primeiro-Ministro) e os religiosos (que são instáveis em relação ao apoio que podem dar).

Lapid afirmou que deseja a manutenção de Netanyahu no posto, participando ou não da coligação, porém, dependendo de como for realizada essa negociação, ela determinará a participação laica/centro-esquerdista próximas eleições, pois estes tem graves contraposições aos ortodoxos.

Fica a questão de se Netanyahu conseguirá governar sem a sua participação, já que a ex-Kadima (“Para Frente”, em português) e agora Hatnuah (“O Movimento”) negou qualquer chance de coalizão, por intermédio do líder Tzipi Livni. Fica no cenário futuro, a expectativa diante da habilidade de Netanyahu para vencer os lances desta negociação que, se falhar, certamente impedirá o desenvolvimento de capacidade administrar o país.

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[1] Vladimir Evgenevich (Zeev, “Lobo”, em português) Jabotinsky (Odessa, Ucrânia, 18/10/1880 – Nova Iorque, EUA, 03/09/1940) é um filósofo judeu ucraniano, revisor do sionismo. Ele pretendia refundar o movimento sionista sob novas bases, requerendo as terras de ambas as margens do rio Jordão com a colaboração dos ingleses. Foi o fundador da “Organização de Autodefesa Judaica” (1920) em Odessa (URSS), durante a “Segunda Guerra Mundial” e após, na denominada “Palestina Britânica”, usou a mesma tática para defender a população judia dessa região. Também foi o fundador do movimento juvenil de direita BETAR (1923), com o intuito de difundir suas ideias.

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População religiosa ultra-ortodoxa altera o panorama israelense

Escrito Por Ricardo Varnier

Israel vive os 60 anos de sua fundação. Do período pré-independência até o início dos anos 70, seus cidadãos eram na sua maioria judeus cosmopolitas vindos da Europa,  muitos fugindo de guerras e perseguições, bem como das consequências dessas situações.

Praticamente todos eram sionistas e grande parte deles se dirigiu aos kibbutzim (pl. kibutz), no movimento que industrializou e fez crescer o país em pouco tempo. A maioria era de não religiosos, mas aqueles religiosos que participaram da migração e se dirigiram para Israel também eram sionistas e colaboraram para o país crescer sem perturbar os fundamentos e alterar as características de um Estado moderno, principalmente no aspecto de preservar a separação entre religião e Estado.

No final dos anos 70, após o país estar estabilizado, ter gerado uma condição em que a sua destruição se tornara uma tarefa inviável aos seus inimigos e ter praticamente resolvido o problema da criação das necessárias condições econômicas e urbanas, iniciou-se a imigração massiva de religiosos ultra-ortodoxos[1].

Muitos deles saíram daqueles países da antiga “União Soviética”, dos Estados membros do extinto “Pacto de Varsóvia” e dos “Estados Unidos”, além de uma menor quantidade que emigrou de pólos importantes de judeus que eram remanescentes do “Pós – II Guerra”, tais como os pólos que existiam na França, na Inglaterra, na Austrália e a na Argentina.

Daqueles que provieram da antiga “Cortina de Ferro” e da Argentina, independente da posição religiosa que tinham, somente os ultra-ortodoxos foram fieis à Alyiah[2], estabelecendo-se em Israel com objetivo de estabelecer residência definitiva e não por conveniência com o intuito de tornar o país uma ponte para a “Europa Ocidental” ou para os “Estados Unidos”, tal qual milhares de judeus fizeram[3].

Este grupo está se integrando rapidamente e participando ativamente da política, ao contrário dos demais – os religiosos modernos e os não religiosos (ou seculares) – que cada vez mais estão se afastando e deixando um vácuo de poder que os ultra-ortodoxos estão ocupando à medida que vem assumindo um papel relevante, mesmo que representem uma população muito menor que a proporcionalidade dos votos que produzem em cada eleição, observando-se que seu índice de participação (voto) é maior que o de eleitores seculares, apesar destes últimos (ainda) serem a maioria populacional em Israel.

A questão que os observadores lançam ao analisar este fenômeno é: Israel se tornará um Estado com modelo próximo ao do Irã, onde as leis são baseadas na religião e os candidatos aos cargos políticos precisam ser aprovados por um Conselho religioso, ou continuará a ser uma Democracia ao estilo ocidental, ou seja, secular, com respeito pelas minorias e pelas diferenças, já que, apesar de nas “Cartas Magnas” de países ocidentais poder estar escrito que suas fontes de inspiração se dão na religião dominante (normalmente as igrejas cristãs), este princípio não interfere na política, nem determina os direitos positivados pelo Estado?

É um problema que começa a ser analisado pelos especialistas devido a postura dos ultra-ortodoxos, que representa a possibilidade do estabelecimento de um modelo menos ocidentalizado de Estado e, conforme foi apontado, vem avançando politicamente em Israel.

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[1] Imigração religiosa referindo-se a esse grupo sempre houve. Contudo, ela foi expressivamente menor se comparada aquelas ocorridas nos demais momentos com a realizada nessa época. Para entender a diferença, deve-se levar em conta a comparação entre o número de religiosos ultra-ortodoxos em relação a soma daqueles que não são religiosos com os que são religiosos ortodoxos modernos e com os demais religiosos sionistas.

[2] Do hebraico “ascensão”, termo usado para definir a emigração de um judeu por definição a Israel. Judeu por definição: aquele cuja mãe é judia ou converte-se conforme a ortodoxia demanda, ou seja, não basta sentir-se judeu, nem ser apenas filho de pai judeu.

[3] Um exemplo interessante é o caso da família húngara Weitz que, algum tempo após a Alyah, deixou Israel para morar em “Nova Iorque”. Mais tarde, um de seus filhos, Chaim, adotou o pseudônimo de “Gene Simmons” e se tornou baixista da banda de Rock mundialmente famosa conhecida como KISS.

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