NA SUÉCIA, A SALA DOS INIMIGOS É DA PAZ

No início dos tempos Deus não disse para os suecos “Aqui será a terra de vocês. Nasçam nela, trabalhem e sejam felizes!”.  A Suécia de hoje é o resultado de séculos de guerras, de trabalho pesado e de muita política.

Grande parte da capacidade política dos suecos encontra-se numa sala de tamanho médio, no “Castelo de Läckö”. Lá, existe a Sala dos Inimigos, ou, a Sala da Paz. Pelas quatro paredes há retratos a óleo da maioria dos dirigentes de países europeus que viveram ao redor da época da Guerra dos Trinta Anos, no século 17, período em que ocorreu a Guerra dos Trinta Anos (1630), na qual a Suécia se envolveu.

Depois da brilhante vitória em Breitenfeld, em 1631, o sucesso sueco continuou e 100 cidades alemãs foram tomadas. Além delas, também foi conquistada a parte mais rica da cidade de Praga, na Tchecoslováquia.

Na “Paz de Westfália”, que marcou o nascimento de um novo sistema internacional, em 1648, a Suécia tinha conquistado grandes áreas da Alemanha, como gordos pedaços da Pomerânia, Wismar, Bremen-Verden (menos a cidade de Bremen) e os condados de Wildehausen e de Thedigenhausen. Após uma nova guerra contra a Dinamarca, a “Paz de Roskilde”, em 1658, recebeu o Skane, Halland, Blekinge, a Ilha de Bornholm e Trondheim, na orla do Oceano Atlântico.

Então a nação mais poderosa da região do Mar Báltico, a Suécia tinha vez e voz no “Parlamento da Alemanha”. Para chegar a esse ponto precisou lutar durante 90 anos, o que lhe gerou significativos inimigos. Essa glória durou 161 anos, 111 dos quais foram de pura guerra. Destacando-se que os soldados suecos e finlandeses lutavam no Mar Ártico, aos pés dos Alpes e da ocidental cidade de Estrasburgo, na França, até a oriental Moscou. E isso significou muitos anos de sofrimento aos povos da Dinamarca, da Rússia, do Mar Báltico e da Polônia, assim como de muitas cidades da Alemanha.

Os governantes de todos esses países odiavam os governos suecos, pois um rei sueco morria, mas seu sucessor continuava fiel às políticas do país, mostrando o exercício de uma política de Estado. Aqui não cabem as listas de nomes de reis, rainhas, príncipes, primeiros-ministros e de generais que lutavam – e perdiam – para os suecos. Eles são inúmeros.

Os mais importantes inimigos da Suécia de então têm, até hoje, seus retratos a óleo nas quatro paredes da “Sala da Paz”, no Castelo de Läckö. Estão lá desde o século 17, enquanto os soldados suecos lutavam contra todos os países aqui mencionados.

Políticos espertos, aqueles reis suecos faziam o que era esperado deles e faziam com grande competência porque tinham sido treinados. Mas não cultivavam ódios. Apenas jogavam o jogo da política, onde se vence ou se perde.

Historicamente, os escandinavos não cultivam ódios. Quando o Brasil elimina a Suécia de uma Copa do Mundo e chega à partida final, os suecos torcem pelo Brasil “porque ele é tão bom que chegou à partida final”.  É este sentimento de distância do inimigo que está fisicamente exposto no Castelo de Läckö. Vale visitar este Castelo, pois ele ilustra como se comportam os estadistas e os povoas acostumados a serem governados por homens desta envergadura.

Construído em 1298, o Castelo de Läckö mostra ao mundo a maneira sueca de tratar os inimigos (diríamos maneira humana e civilizada?). Numa época absoluta de reis, esses homens do século 17 deixaram o recado de sua forte democracia. Diante da “Sala dos Inimigos”, ou a “Sala da Paz”, nós latinos, desacostumados a comportamentos como esses ficamos embasbacados. Com naturalidade uma guia turística certamente informará que naquelas quatro paredes estão os retratos dos políticos e governantes inimigos do governo sueco de então.

Comportamento como esse, de colocar em prédio público, uma sala repleta de quadros a óleo, dedicada aos inimigos do país, talvez só possa ser visto na Suécia, no Castelo de Läckö, a poucos quilômetros de Gotemburgo.

Quando essa sala foi inaugurada o Castelo de Läckö pertencia ao riquíssimo Conde Magnus Gabriel De La Gardie e à sua esposa Princesa Eufrosina do Palatinado-Zweibrücken, irmã do Rei Carlos X Gustavo. (O atual Rei da Suécia é Carlos XVI Gustavo).

A partir de 1654, e durante 25 anos, De La Gardie  cuidou da conservação de Läckö, transformando uma fortaleza renascentista em um esplendoroso palácio barroco, recheado pela melhor arte da época. Os pisos originais, de madeira, estão protegidos por decks também de madeira, onde os turistas  pisam em segurança.

Uma apoteose à “Guerra dos Trinta Anos”, esta Sala fica no segundo andar e é vizinha da “Sala da Áustria”,  da “Sala de Desenho” e da “Sala do Rei”, outra apoteose à “Guerra dos Trinta Anos”, na qual a Suécia foi “top de linha’. A elite dos artistas contratados por Magnus Gabriel De La Gardie  são os responsáveis pela grandeza da decoração.

Podendo usar apenas a imaginação, admitamos que as reuniões sobre a movimentação bélica acontecessem sob os olhares dos inimigos da Suécia. É o mesmo que a Casa Branca ter nas paredes de uma sala as fotos coloridas de Ozama Bin Laden, de Saddam Hussein, Mao Tse-Tung e de Ahmadinejad. E sob esses retratos o presidente dos Estados Unidos e seu Estado Maior deliberarem o quê fazer contra os retratados! Tal sala faria manchetes!

Para qualquer pessoa, uma guerra estica os nervos dos participantes. Na guerra a cabeça explode, porque já esquentou muito antes. Menos na Suécia, que no século 17 mostrou ao mundo que é possível olhar para o inimigo, dentro de nossa casa, manter a cabeça fria e realizar atos positivos – e muito bem estudados – que levem a vencer a guerra. Seja ela qual for. E a Suécia venceu.

Eis um exemplo para o nosso tempo, como para todos os tempos.

Pode-se dizer que foi a inauguração do atual benchmarking.

No século 17, sem telefone, nem de manivela, o máximo de benchmarking eram os retratos a óleo e o raciocínio do estrategista, pensando como refletia aquele que estava retratado, ali na parede. Eles permanecem como acervo artístico do Castelo de Läckö, mas a função deles foi inspirar ações contrárias. Quem sabe os suecos olhavam os retratos, encarando os inimigos e perdendo o medo deles. Não pixavam, nem jogavam ovos! Praticavam a concentração, base da vitória, estudando o inimigo de perto. Foi uma forma de “aliar-se” aos inimigos, respeitando uma distância higiênica.

É um exemplo que poderia ser seguido nos dias de hoje, nos quais os comportamentos elegantes típicos de estadistas estão sendo substituídos por bravatas, egocentrismos, agressões e ofensas aos seus e às tradições, que devem respeitadas, mesmo que sejam as pertencentes aos piores inimigos.