• Somália: qual o futuro do al-Shabab?

    No dia 21 de setembro de 2013, homens armados invadiram e tomaram o complexo comercial de Westgate, localizado na capital queniana, Nairóbi[1], e amplamente frequentado por ocidentais. O ataque foi rapidamente assumido pelo grupo islâmico radical somali al-Shabab (cujo significado aproxima-se de “A Juventude”), e a sofisticação do feito teria chamado a atenção de especialistas[2]. Além de terem amplo conhecimento das estruturas físicas do shopping, os militantes utilizaram redes sociais para transmitir seus objetivos, narrar a ação dentro do complexo e para deixar claro que seus alvos seriam apenas os não muçulmanos. Esta não é a primeira vez que os conflitos na Somália possuem repercussões trágicas para os países africanos cujas tropas se encontram em solo somali*. No entanto, esta nova ação é estrategicamente significativa pois reflete alterações recentes nas dinâmicas internas da Somália, do Shabab e da própria região do chamado “Chifre da África” – nordeste do continente.

    Em 1991, a derrubada do ditador Siad Barre mergulhou a Somália no caos e na anarquia. Ao longo da década seguinte, suas instituições políticas e sua economia foram paulatinamente implodidas, com clãs e chefes de guerra rivais disputando o controle da capital Mogadíscio, conflito reproduzido por praticamente todas as regiões do país**. A instabilidade e a falta de governança levaram à pobreza e a uma grave crise de alimentos no país, com boa parte de sua agricultura sendo destruída. Milhares de somalis abandonaram suas casas, tornando-se deslocados internos ou refugiados em países como Quênia e Iêmen [3]. Aproveitando-se da situação caótica, grupos radicais se estabeleceram e se fortaleceram na Somália, país de população majoritariamente muçulmana sunita.

    Nesse contexto, surgiu o grupo extremista “salafista” denominado “Unidade do Islã” (AIAI), formado por jovens somalis educados no “Oriente Médio”, cujo objetivo era o estabelecimento de um emirado islâmico no país. A AIAI é apontada por analistas como sendo a precursora do atual Shabab, já que muitos de seus líderes fizeram parte da organização. É importante ressaltar, entretanto, a agenda prioritariamente nacional do grupo, embora existissem laços econômicos com a al-Qaeda e muitos de seus membros tenham combatido no Afeganistão no início dos anos 2000[4].

    Em 2003, lideranças da AIAI optaram pela formação de uma ala política, gerando o rompimento com a ala mais jovem e radical. O grupo dissidente aliou-se, então, à chamada “União de Cortes Islâmicas” (UCI), com a qual compartilhava a visão de um Estado islâmico somali, desempenhando o papel de braço armado da UCI na luta pela conquista do país.

    Paralelamente, no ano de 2004, formou-se no exílio o “Governo Federal de Transição” (GFT) somali, composto por líderes dos principais clãs do país e apoiado pela “Organização das Nações Unidas” (ONU), pelos “Estados Unidos” e por países africanos como o Quênia e a Etiópia. Entre seus principais objetivos estavam a elaboração de uma nova Constituição e a realização de eleições nacionais, regionais e locais. O GFT funcionaria a partir de Nairóbi, já que a questão securitária e os avanços da UCI impediam seu estabelecimento em território Somali. Em junho de 2006, após mais de três anos de conflitos, o grupo islâmico venceu a coalizão apoiada pelo GFT e seus parceiros, formada basicamente por senhores de guerra e milícias, estabelecendo um governo muçulmano com significativo apoio popular[5].

    O governo da Etiópia, no entanto, interpretou a vitória da UCI como uma ameaça à sua segurança e a seus interesses. As autoridades de Addis Abeba enviaram suas forças armadas para intervir na Somália, apoiadas em termos de logística e materiais pelos “Estados Unidos”. No mês de dezembro de 2006, suas tropas tomaram Mogadíscio sem enfrentar grande resistência, permitindo o estabelecimento do Governo Federal de Transição somali na capital do país. Em janeiro seguinte, o “Conselho de Paz e Segurança da União Africana” autorizou a formação da “Missão da União Africana para a Somália” (AMISOM), inicialmente formada por tropas de Uganda, Burundi, “Serra Leoa” e Djibuti, com a missão de apoiar o GFT e contribuir para a pacificação do país[6].

    Analistas indicam que a intervenção estrangeira foi crucial para a galvanização do Shabab em um grupo autônomo e a sua passagem de uma organização formada por algumas centenas de combatentes para um grupo organizado e bem financiado, com milhares de insurgentes[7]. A percepção da população de que o exército etíope e a própria AMISOM seriam forças invasoras e de que o GFT seria corrupto e protetor de interesses estrangeiros garantiu apoio inicial ao Shabab.

    O grupo aproveitou para aliar-se a líderes de clãs em diversas regiões da Somália, estabelecendo ao longo dos anos seguintes seu controle sobre boa parte do sul e do centro do país e impondo sua interpretação radical da sharia***. Em 2009, após a retirada do exército etíope, o Shabab retornou a Mogadíscio, deixando a cidade dividida por uma linha de batalha entre as áreas controladas pelos insurgentes e as sob domínio da AMISOM, com o GFT sendo capaz de estabelecer sua autoridade apenas sobre alguns bairros da cidade.

    A partir de 2006, o Shabab estabeleceu redes de financiamento que passaram a lhe render milhões de dólares ao ano. Cobrança de impostos de pequenos comércios nas áreas sob seu controle, taxações sobre as atividades portuárias em Kismayo e Mogadíscio, exportação de carvão[8], importação de açúcar posteriormente contrabandeado e vendido no Quênia, sequestros e pedidos de resgate e pirataria seriam algumas das atividades levadas a cabo pelo grupo. Além do mais, o controle dos insurgentes sobre a atividade portuária permitiria o recebimento de armamentos e suprimentos fornecidos por apoiadores estrangeiros. Países como Síria, “Arábia Saudita”, Eritréia, Qatar, Irã e Iêmen já foram apontados como possíveis apoiadores[9].

    Apesar de sua significativa rede de financiamento, o Shabab retirou-se de Mogadíscio em agosto de 2011 após o endurecimento dos combates com a AMISOM. Em outubro do mesmo ano, tropas do Quênia invadiram o sul da Somália em perseguição aos insurgentes radicais, que haviam realizado sequestros de turistas ocidentais na fronteira entre os dois países. Planejada havia tempos[10], a ação colocou pressão sobre o Shabab, com a Etiópia também enviando seu exército para o território vizinho. Fortalecida, especialmente após incorporar as forças quenianas em território somali, a AMISOM iniciou uma ofensiva conjunta com o “Exército somali”, formado por milícias aliadas ao “Governo Federal de Transição”. O Shabab foi expulso de diversas cidades importantes, culminando na retomada de Kismayo, principal fonte de financiamento dos radicais, em outubro de 2012[11].

    A melhora na situação securitária do país permitiu, ainda em 2012, a elaboração de uma Constituição transitória, a formação de um novo Parlamento e a eleição do presidente Hassan Cheikh Mohamoud, que indicou Abdi Farah Shirdon como primeiro-ministro responsável por constituir o primeiro governo de fato do país desde o início da década de 1990. Assim, nos últimos anos, a Somália obteve avanços significativos rumo à sua estabilização. Mogadíscio está em reconstrução, e o novo governo busca agora consolidar as conquistas obtidas. Porém, os desafios ainda são grandes, requerendo a recuperação econômica****, o estabelecimento de sua autoridade pela totalidade do país*****, a entrega de serviços básicos para toda a população, a formação de uma justiça e de forças policiais e militares sólidas e o estabelecimento de um diálogo de reconciliação que conduza à unidade nacional[12]. O novo governo tem como metas a formulação de uma Constituição definitiva e a realização de eleições nacionais até o ano de 2016.

    Todavia, o Shabab permanece como uma ameaça significativa. Evitando combates diretos com as tropas da AMISOM e as forças somalis, o grupo conseguiu manter intactas sua capacidade operacional, cadeia de comando e disciplina. Retirar-se de cidades como Mogadíscio e Kismayo teria sido uma escolha estratégica do grupo que, apesar de ter sofrido cortes expressivos em suas redes de financiamento, possuiria armamentos estocados no sul e no centro da Somália, em grande medida ainda sob seu controle. O Shabab teria passado de uma força semelhante a um exército, capaz de controlar extensas porções de território, para uma rede descentralizada e clandestina[13], voltada para a realização de ataques como ao complexo de Westgate ou à sede do “Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento” (PNUD) em Mogadíscio, no mês de junho de 2013[14].

    Mais significativa ainda é a aparente mudança no foco do Shabab. Nos últimos meses, conflitos teriam ocorrido dentro do grupo, opondo uma ala nacionalista, defensora de uma atuação voltada para objetivos dentro da Somália, e outra ala dotada de uma agenda internacional jihadistas[15]. As divergências teriam se iniciado com o anúncio de laços com a al-Qaeda, em fevereiro de 2012, e culminaram na vitória dos radicais jihadistas. Aliados de seu líder, Ahmed Abdi Godane, teriam matado um dos cofundadores do grupo, Ibrahim al-Afghani, e forçado outras lideranças dissidentes a fugir[16]. Nesse sentido, os laços internacionais do grupo se expandem. Antes formado em grande medida por somalis, o Shabab possui há alguns anos uma rede de recrutamento de jovens muçulmanos no Quênia, aproveitando-se das altas taxas de desemprego e pobreza entre os jovens, do recrudescimento do sectarismo no país vizinho e da corrupção em seu governo[17]. Membros da “diáspora somali”, vivendo em países como os Estados Unidos, já foram recrutados pelo grupo para a participação em atentados. Da mesma forma, indícios apontam para a existência de laços entre o Shabab e organizações como o “Boko Haram” e “al-Qaeda no Magreb Islâmico[18].

    Caso o novo governo somali seja bem sucedido frente aos grandes desafios que lhe são impostos, é possível que o Shabab se distancie cada vez mais de objetivos na Somália e se comprometa ainda mais com o jihad internacional. Logo, os diálogos de unidade nacional são de grande importância, já que podem gerar o rompimento definitivo entre os líderes de clãs somalis, em certa medida percebidos como legítimos pela população e, portanto, com um papel a desempenhar na reconstrução do país, e a vertente internacionalista no grupo.

    De acordo com analistas, essa separação poderia até mesmo tornar a Somália um ambiente inóspito para o grupo de Ahmed Godane, forçando-o a se estabelecer alhures na região[19], em países com maior potencial para recrutamento de novos insurgentes. Nesse sentido, o recente ataque em Nairóbi é emblemático, demonstrando a capacidade do grupo em atingir a maior cidade da “África do Leste” e a presença crescente no Shabab no Quênia. Entretanto, a exigência feita pelos radicais de que o governo queniano retire imediatamente suas tropas da Somália indicam que raízes expressivas em seu país de origem ainda estão longe de ser desfeitas.

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    Notas:

    * Em 11 de julho de 2010, ataques realizados pelo Shabab em Kampala, Uganda, teriam deixado dezenas de mortos e feridos.

    ** Pouco após a derrocada da ditadura, a região da Somalilândia, norte da Somália, declarou sua independência. Os confrontos que se seguiram deixaram milhares de mortos. Entretanto, enquanto a Somália como um todo enfrentou duas décadas de instabilidade e anarquia, a Somalilândia foi bem sucedida em estabelecer instituições políticas e econômicas próprias, mantendo-se estável e funcionando como um Estado dentro de um Estado, dada a ausência de reconhecimento internacional.

    *** Essa imposição, determinando punições como a amputação de mãos pela realização de furtos, não fazia parte da sociedade somali anteriormente, rendendo a perda relativa de apoio do grupo. Outro fator de perda de apoio foi a manutenção da cobrança de impostos em áreas sob seu controle durante a crise de fome iniciada em 2010.

    **** No ano de 2013, duas conferências internacionais foram realizadas pelo governo somali, com o apoio do “Reino Unido” e da “União Europeia”, para a arrecadação de recursos para a reconstrução da Somália.

    ***** No mês de maio de 2013, clãs rivais passaram a disputar o controle da região sul da Somália, economicamente importante e autoproclamada como semiautônoma. As autoridades federais somalis declararam a ação inconstitucional, e as tensões acabaram por levar a conflitos na área sob o controle da AMISOM. O ocorrido indica as dificuldades rumo à unidade nacional.

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    Fonte imagem:

    http://www.reuters.com/news/pictures/searchpopup?picId=11647317

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    Fontes Consultadas:

    [1] Ver:

    http://www.cartacapital.com.br/internacional/alvo-eram-quenianos-infieis-diz-milicia-ligada-a-al-qaeda-5483.html  

    [2] Ver:

    http://www.project-syndicate.org/commentary/the-high-stakes-of-kenya-s-fight-against-al-shabaab-by-michael-meyer

    [3] Ver:

    http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=43329&Cr=Somali&Cr1=#.UkL3QtLIGAi

    [4] Ver:

    http://www.cfr.org/somalia/al-shabab/p18650?goback=%2Egde_160896_member_276043115#%21

    [5] Ver:

    http://www.foreignaffairs.com/articles/68315/bronwyn-bruton-and-j-peter-pham/how-to-end-the-stalemate-in-somalia

    [6] Ver:

    http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=43402&Cr=Somalia&Cr1=#.UkRCf9LIGAh

    [7] Ver:

    http://www.cfr.org/somalia/al-shabab/p18650?goback=%2Egde_160896_member_276043115#%21

    [8] Ver:

    http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/09/1346102-saiba-mais-al-shabaab-grupo-militante-que-reivindicou-ataque-no-quenia.shtml

    [9] Ver:

    http://www.cfr.org/somalia/al-shabab/p18650?goback=%2Egde_160896_member_276043115#%21

    [10] Ver:

    http://blogs.cfr.org/zenko/2011/10/27/somalia-kenyas-invasion-and-objectives/

    [11] Ver:

    http://www.rfi.fr/afrique/20120929-somalie-shebabs-retirent-kismayo-leur-dernier-bastion-kenya

    [12] Ver:

    http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=43311&Cr=somalia&Cr1=#.UkQ6d9LIGAj

    [13] Ver:

    http://www.rfi.fr/afrique/20130620-attentats-somalie-onu-mogadiscio-shebab

    [14] Ver:

    http://www.foreignpolicy.com/articles/2013/07/22/is_the_us_ramping_up_a_secret_war_in_somalia_al_shabab?page=0,0

    [15] Ver:

    http://www.foreignaffairs.com/articles/137068/bronwyn-bruton-and-j-peter-pham/the-splintering-of-al-shabaab

    [16] Ver:

    http://www.rfi.fr/afrique/20130701-somalie-guerre-interne-sein-mouvement-shebab-ahmed-abdi-godane

    [17] Ver:

    http://www.foreignaffairs.com/articles/138751/alexander-meleagrou-hitchens/jihad-comes-to-kenya

    [18] Ver:

    http://www.hurriyetdailynews.com/Default.aspx?pageID=238&nid=24095

    [19] Ver:

    http://www.foreignaffairs.com/articles/137068/bronwyn-bruton-and-j-peter-pham/the-splintering-of-al-shabaab