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    • Rodrigo Dora

      Negócios Internacionais
    • 27 de setembro de 2013 in Convidados

    Detroit: Um mercado emergente nos EUA

    Por Rodrigo Dora. Advogado, Fundador da BRCS-PED e empresário em Detroit.

    Detroit, com mais de US $ 18 bilhões em dívidas, está observando a participação de muitos escritórios de advocacia, bem como de consultores de vários setores, que clamam para representar os muitos credores da cidade, incluindo alguns conselheiros que não foram exatamente conhecidos por seu trabalho municipal na reestruturação de Detroit.

    A cidade, que apresentou a maior falência municipal dos EUA no dia 18 de julho de 2013, devastou advogados caros do “Jones Day”, um dos maiores e mais respeitados escritórios de advocacia do mundo; consultores financeiros da “Ernst & Young” e consultores de reestruturação de “Conway Mackenzie”, conforme apresentam os documentos do tribunal.

    Para os credores e partes relacionadas, há claramente muita coisa em jogo. Isso significa que os obrigacionistas, as seguradoras, os aposentados e outros têm a certeza de  que irão acompanhados ao tribunal por pelotões de advogados. Mas, e para quem não é advogado?! Isso é o que alguns empresários devem estar se perguntando, pois para estes é interessante entender como Detroit pode sair do nebuloso rótulo de a maior falência municipal da história norte-americana.

    Empresários e líderes comunitários de cidade não esperaram um pedido de falência ou resolução judicial para determinar o seu destino. Antes, aproveitaram-se de antigos ditados, alguns centenários, como o que diz que há oportunidade de negócios quando a maré esta em baixa. Apesar de alguns esforços estarem apenas começando, esses empresários visam ajudar Detroit a se reinventar como uma cidade menos dependente de empregos na indústria do automóvel.

    Muitas pessoas, ao ouvirem o anúncio da concordata, deram um alívio de suspiro, pois para elas foi o sinal de que deviam ir para frente, de que era hora de seguir e deixar o que passou. Há muito espaço ocioso naquela que foi a terceira maior cidade dos EUA. Mais da metade de seus moradores deixou suas casas, em um processo que perdurou pelos últimos 30 anos.

    Nesse sentido, cabe ressaltar o trabalho de líderes comunitários que começaram a criar pequenos projetos de renovação urbana há vários anos. Como ponto de referência, Detroit é uma cidade de cerca de 140 quilômetros quadrados, com diversos bairros e necessidades, marcadas pelos dias das empresas gigantes, como a “General Motors”, que bombearam empregos em “Motor City”. Daí o trabalho contínuo e extremamente necessário de reurbanização e readequação da cidade, com o reaproveitamento de bairros fantasmas em parques, centros históricos, enfim…

    Embora haja todo o sentimento de gratidão pelos trabalhos criados pelos “Big Three”, há a necessidade de que com esse declínio da indústria automobilística, Detroit ainda seja capaz de sustentar essas centenas de milhares de postos de trabalho na indústria transformadora ou que seja possível fomentar o retorno dessas pessoas que evadiram com a nova ascensão da cidade. Assim, Detroit pode e deve ser uma cidade de inovação. Há espaço para isso e muito amor pelo sentimento “Made in Detroit” ou, simplesmente no coração dos “Great Lakes” americanos, o “Pure Michigan”, marcas amplamente divulgadas e extremamente fortes.

    Experiências do retorno.

    Não faltam experiências bem sucedidas em Michigan e em Detroit após a crise de 2008. O fomento e o fortalecimento daquilo que é produzido na cidade dos motores ou no “Comeback State” é consumido por aqueles que lá vivem e promovido pelos demais estados americanos. Há também casos de missões empresariais “overseas”.

    Parte dessas  experiências são influenciadas por necessidades geradas pelo próprio declínio de Detroit. Como o “Pickles de McClure” que se mudou para um antigo armazém de reciclagem de ferragens de carros. Assim, a ocupação de antigos armazéns e locais mais degradados é um desafio que empresários astutos têm abordado para o reaproveitamento, utilizando estruturas sub-utilizadas baratas. O “Pickles de McClure” mudou-se para Detroit porque o depósito foi tão barato, que a empresa ao invés de ampliar suas instalações de Brooklyn, NY, resolveu mudar  sua fábrica de picles para o armazém abandonado.

    O fundador Joe McClure, um nativo de Michigan, escolheu o armazém para a sua estrutura não havendo necessidade de um novo telhado ou reformas no chão. E o preço de 250 mil dólares era muito mais barato do que o custo de uma nova planta. O edifício tem uma história também. Lá, as peças do carro eram feitas por pessoas cujos empregos foram movidos para o México.  As etiquetas do frasco para “Pickles de McClure”, disponíveis em lojas como “Whole Foods” e “Williams-Sonoma”, orgulhosamente declaram: “Brooklyn * Detroit”.

    Outra experiência bem sucedida foi a da empresa Ponyride que tirou vantagem das estruturas defasadas e abandonas de Detroit.  Após a crise, a empresa comprou um armazém de Detroit por US$ 100.000.  Esse armazém constituiu um espaço de múltiplo uso, que abriga cerca de 40 pequenas empresas e projetos, alguns deles gerando empregos na comunidade. Os inquilinos são compostos por produtores de música, desenvolvedores de TI e designers de roupas.

    Por fim, o grande empresário de Detroit, Dan Gilbert, fundador da “Quicken Loans”, mostrou-se favorável ao projeto de reurbanização da cidade e de demolição de estruturas abandonadas para mover a cidade para a frente. Gilbert, que está entre os maiores proprietários da cidade, estima que cerca de 120.000 imóveis comerciais e residenciais precisam ser removidos. Como presidente da “Quicken Loans”, ele mudou sua sede para a Motown em 2010 e com ele seus cerca de 200 funcionários.

    Quer se trate de demolição ou reciclagem de estruturas, o ponto mais importante é agir, ao invés de esperar por um milagre de fabricação capaz de ressuscitar o “Rust Belt”. A batalha judicial sobre o futuro de Detroit, entretanto, continua.