• A roda da história e as eleições em Honduras

    Em 24 de novembro, passados quatro anos e cinco meses do golpe de Estado em Honduras (28 de junho de 2009), que destituiu do poder o então presidente Manuel Zelaya, o país terá novas eleições para o cargo máximo do Executivo. Para os brasileiros, o fato deveria chamar a atenção, já que durante quatro meses Manuel Zelaya ficou em situação de hóspede – abrigo – na embaixada do Brasil, em Tegucigalpa, e para tal contou com o explícito apoio do governo Lula.

    Em um exercício breve de retrospectiva, esta situação foi muito debatida na época. A posição oficial do Brasil, dada pelo presidente Lula e pelo ministro de Relações Exteriores Celso Amorim, de defender de forma irredutível as suas perspectivas de instituições democráticas foi refletida no não reconhecimento de Porfírio Lobo, presidente eleito após a saída de Zelaya, mesmo com o reconhecimento dos Estados Unidos e da “Organização dos Estados Americanos” (OEA)[1]. O Brasil só veio a reconhecer o novo Presidente, dois anos mais tarde, em 2011. Por sua vez, a questão do abrigo, ou da condição de hóspede, em que Zelaya se encontrou durante quatro meses, foi considerada ilegal por alguns entendidos do assunto, como o ex-ministro de Relações Exteriores do governo Fernando Henrique, Celso Lafer, que considerou o ato, uma “intervenção nos assuntos internos de Honduras[2]. Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil na Inglaterra e nos Estados Unidos, fez uma análise parecida, segundo a qual: “por causa dessa posição partidária, ideológica do governo brasileiro de se associar a Chávez, a Morales, o Brasil está a reboque dos acontecimentos, não está liderando nada[3]. Em contrapartida, o professor de Relações Internacionais da UFRJ, Manuel Coutinho, observou que a atitude brasileira foi acertada, já que “faz parte de nossa tradição diplomática” e relembra algo, que contradiz Rubens Barbosa sobre a atuação ideológica do governo, já que em “2005, o Brasil abrigou o presidente [Lúcio] Gutiérrez (atualmente líder do Partido Sociedad Patriótica – de extrema- direita) do Equador, que foi derrubado pela população. A população sitiou a embaixada brasileira e o governo mandou um avião buscá-lo e tirá-lo do país”. O professor conclui então que, “o abrigo foi perfeito e está de acordo com tradição diplomática e com os direitos humanos”.

    Retomada a polêmica local, o texto se volta novamente para as eleições hondurenhas deste ano. Estas trarão o sobrenome Zelaya mais uma vez para as urnas, só que desta vez a de Xiomara Castro de Zelaya, esposa de Manuel Zelaya. O nome da ex-primeira dama remete ao golpe civil-militar de 2009 e ao abrigo concedido pelo Brasil para Manuel Zelaya. Isto porque, segundo o próprio ministro Celso Amorim, foi justamente a mulher de Zelaya quem atuou junto à embaixada brasileira para pedir abrigo para o seu marido[4].

    Candidata pelo “Partido Libertad e Refundación (Libre), Castro Zelaya será uma das principais concorrentes de Juan Hernández, do “Partido Nacional”, agremiação que atualmente governa o país. Junto aos dois candidatos, se soma o ex-chefe de Estado das “Forças Armadas” hondurenhas, um dos líderes do golpe de 28 de junho, Romeu Vásquez Velásquez, pelo “Partido Alianza Patriótica[5]. Outros seis candidatos concorrentes entram na disputa, representando os seguintes partidos: “Partido Liberal”; Demócrata Cristiano”; Innovación y Unidad-Social Democrata”; Unificación Democrática”; Anticorrupción, Frente Amplio” e Frente Amplio Político Electoral en Resistencia”. Neste arcabouço de partidos, é importante ter em mente que quatro deles foram fundados após o golpe de 2009, inclusive o Libre, partido de Castro Zelaya.

    Apesar do que já foi dito, o leitor, não pode perder de vista a situação atual da população do país. Segundo a “Organização das Nações Unidas” (ONU), Honduras tem a maior taxa de homicídios do mundo, 85.5 para cada cem mil pessoas. Ainda de acordo com a ONU, 70% dos seus oito milhões de habitantes vivem na pobreza[6]. A insegurança institucional criada após o golpe de 2009, só aumenta as dificuldade políticas para combater estas mazelas, nas quais o próximo presidente eleito se deparará.

    Neste sentido, uma das principais propostas de Castro coincide com um projeto similar da também candidata presidencial do Chile, Michelle Bachelet, que é a criação de uma Assembleia Constituintepara promover um novo marco jurídico, político e institucional.

    As primeiras pesquisas eleitorais[7] colocam Castro Zelaya em primeiro lugar com 28% das intenções de voto, a frente de Salvador Nasralla, um locutor esportivo, que detém 21% das intenções. Em terceiro lugar está o candidato do “Partido Nacional”, que governa o país, Juan Orlando Hernández, que também é presidente do Congresso. Como em Honduras não tem segundo turno eleitoral, caso confirmada esta pesquisa, Castro Zelaya seguiria os passos de Cristina de Kirchnner, sendo eleita após ter sido primeira dama.

    No entanto, para que Zelaya seja eleita, o “Partido Libre”, conta com o apoio de alguns partidos da “América do Sul”, dentre eles o PSUV (Partido Socialista Unido de Venezuela), o PT (Partido dos Trabalhadores – Brasil), o “Partido del Trabajo” (PTMéxico), a “Frente Sandinista de Libertação Nacional” (FSLNNicarágua) e o “Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional” (FMLN – “El Salvador”)[8].

    Alguns destes partidos aprovaram uma resolução no “Foro de São Paulo”, realizado em agosto, que exigirá a presença de uma missão de observadores da “União de Nações Sul-Americanas” (UNASUL), durante o processo eleitoral[9]. Esta aprovação se dá em um contexto de temor de agressões físicas e perseguições políticas no país. Segundo Bertha Oliva, coordenadora do “Comitê de Familiares de Detidos Desaparecidos em Honduras” (COFADECH), ela teme o aumento de agressões a militantes e simpatizantes do “Partido Libre”. Ainda segundo Oliva, das pessoas que acompanharam o processo de asilo de Manuel Zelaya na embaixada do Brasil, oito foram assassinadas em menos de dois anos.

    De todo modo, apesar da baixa participação feminina na vida política da região, o caso de Honduras parece ir à direção da opinião deste autor – em “O ABC das mulheres?[10] , conquanto a consolidação das mulheres na vida política latino-americana e, sobretudo, nos postos fundamentais. Desta forma, ao final do ano, a região pode ver a ascensão de mais duas presidentes da república: Xiomara Castro de Zelaya, em Honduras e Michelle Bachelet, no Chile. Neste sentido, a dominicana Quisquella Lora, membro da “Conferência Permanente de Partidos Políticos da América Latina e do Caribe (COPPAL), adverte: a educação “é a chave da visibilidade das mulheres[11].

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    Fontes consultadas:

    [1] Ver:

    http://www.proceedings.scielo.br/scielo.php?pid=MSC0000000122011000300037&script=sci_arttext

    [2] Ver:

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2409200902.htm

    [3] Ver:

    http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1469466-5602,00-ANALISTAS+APONTAM+ERROS+E+ACERTOS+DO+BRASIL+DURANTE+CRISE+EM+HONDURAS.html

    [4] Ver:

    http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2009-09-22/mulher-de-zelaya-foi-quem-pediu-abrigo-para-marido-na-embaixada-brasileira

    [5] Ver:

    http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/26727/ex-militar+golpista+anuncia+candidatura+a+presidencia+de+honduras.shtml

    [6] Ver:

    http://www.telesurtv.net/articulos/2013/08/26/comienza-campana-electoral-en-honduras-rumbo-a-presidenciales-de-noviembre-2838.html

    [7] Ver:

    http://www.nacion.com/mundo/Esposa-Manuel-Zelaya-elecciones-Honduras_0_1349265147.html

    [8] Ver:

    http://www.telesurtv.net/articulos/2013/06/16/xiomara-castro-lanza-candidatura-presidencial-con-multitudinaria-marcha-patriotica-en-honduras-6302.html

    [9] Ver:

    http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/30447/foro+de+sao+paulo+quer+envio+de+observadores+da+unasul+a+eleicao+hondurenha.shtml

    [10] Ver:

    http://blogceiri.com.br/abc-das-mulheres/

    [11] Ver:

    http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/30714/participacao+politica+de+mulheres+na+america+latina+e+baixa+apesar+das+cotas.shtml

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