Após o anúncio do presidente Lula sobre a vitória do Rafale na concorrência para aquisição de caças para a Força Aérea Brasileira (FAB), os analistas, entre a surpresa e a tristeza, se perguntaram duas coisas:
- Primeiro, por qual razão, ou razões, foi anunciado com tanta antecedência, senão o resultado, ao menos a preferência do presidente brasileiro pela aquisição dos caças franceses.
- Segundo, qual a vantagem de uma aliança tão ampla entre Brasil e França, em termos de política internacional e para a nossa política externa?
Com relação à primeira questão, ela será tratada rapidamente, para evitar leviandade; especulações que, embora verossímeis e prováveis, necessitam de comprovação factual, testemunhal e documental; mas, principalmente, para não tratar de uma questão sobre a qual certamente já devem existir pessoas pesquisando.
No entanto, não se pode ignorar um fato que explica o porquê se fez essa primeira pergunta: a forma como Aeronáutica brasileira vem conduzindo o processo de concorrência entre asempresas está sendo vista pela sociedade internacional como um modelo de competência profissional, transparência e legitimidade, sem perder nos quesitos que tocam os segredos estratégicos. Tanto, que se anunciou, em jornais, que alguns países estavam aguardando o resultado brasileiro para, em suas respectivas concorrências futuras, posicionarem-se a respeito dos concorrentes que participaram do nosso caso.
O anúncio do Presidente Lula abalou porque interrompeu um trabalho que destacaria o Brasil e a sua Força Aérea diante do mundo, trazendo dúvidas sobre a seriedade de uma condução, pois, em uma de suas cláusulas, há, no mínimo, a necessidade do cumprimento do chamado BAFO (Best And Final Offer), “Melhor Oferta Final”. Ou seja, que se espere, até o último instante, uma oferta dos concorrentes em melhores condições para aquele que compra.
Interromper, com quarenta e seis dias de antecedência, um processo que ainda esperava pela entrega dos relatórios técnicos finais da Aeronáutica Brasileira deixou todos, no mínimo, curiosos e, por isso, levantou tantos questionamentos. Por que interromper, naquele momento, algo que pode nos ser muito mais benéfico em futuro breve (23 de outubro de 2009)? Na seqüência do acontecimento, apareceram os constrangimentos explícitos, com reuniões e os anúncios, do Ministério da Defesa, de que o processo se mantinha, tendo sido afirmado apenas que começava a negociação com a França sobre o caça francês, sendo isso o que o presidente brasileiro quis dizer; e da Força Aérea Brasileira, informando que o relatório seria enviado e, assim, cumprida a função de apontar o equipamento mais adequado, dentro das exigências estipuladas, deixando para o Chefe do Executivo a tarefa de escolher, usando de critérios estratégicos e políticos.
Outra questão se levanta, para quem tem hábito de analisar discursos e comportamentos: se o concorrente francês estivesse na liderança, pelo critério técnico, haveria tanta preocupação da Aeronáutica em mostrar que, caso não seja preferido o melhor equipamento, ele não será escolhido por incompetência dos profissionais militares que se prontificaram em trabalhar diuturnamente e cumpriram seus compromissos com competência e dignidade, estando a FAB a salvo de quaisquer críticas e julgamentos da história?
Assim, a única forma de explicar a escolha anunciada, tão apressadamente, apesar dos atuais retrocessos, seriam os critérios “estratégicos” e “políticos”, que cabem ao Presidente da República.
Isso merece reflexões, pois também incide sobre a segunda pergunta feita pelos analistas a respeito das vantagens no cenário internacional que o Brasil terá, se confirmada a escolha anunciada pelo presidente Lula, deixando de lado os demais concorrentes.
Foram apresentadas algumas reflexões sobre isso, apesar de a maioria dos analistas ter ficado contra, ou não ter se posicionado. Elas transitam sobre dois pontos para estruturarem a resposta que dão: há uma corrida armamentista na America do Sul e ela está sendo feita com apoio de grandes atores, os quais estão agindo no continente, por intermédio de acordos militares e venda de armamentos de ponta.
De acordo com a lógica desses argumentos, o cenário sul-americano se encontra dividido em três blocos: um, tendo os bolivarianos, que por escolha do presidente venezuelano Hugo Chávez, elegeu como parceiro comercial-militar a Rússia, mas estão em desvantagem estratégica, pois, além de não receberem a transferência de tecnologia, tem uma relação de inferioridade com os Russos. O outro bloco é dos anti-bolivarianos, configurados explicitamente na Colômbia e no Peru, que tem apoio e investimentos diretos dos EUA, sendo desproporcional a relação de poder entre eles; e o terceiro bloco seria o dos neutros, ou negociadores, que estão mais preocupados com seus interesses individuais que em defender-se de inimigo iminente e/ou em projeção de poder.
Neste último grupo estaria o Brasil, que, pela sua importância internacional, seria envolvido em qualquer problema na região, além de ter de acompanhar a “competição militar”, para fazer frente a quaisquer problemas. Devido ao fato de ter deficiência em equipamentos, lhe é necessário um parceiro para auxiliá-lo.
A resposta dada por aqueles poucos que se pronunciaram apoiando a escolha francesa é de que a França representa uma parceira sem desnível, pois os dois países são similares e, por isso, podem formar um bloco a parte que servirá, tanto para responder à corrida armamentista na América do Sul, como para agir no cenário mundial e, também, para confrontar a influência norte-americana!!!
Por isso, estão explicadas as exclusões dos EUA, que seria visto como um antagonista, devido à desproporcionalidade da relação de poder entre ambos, além de ser concorrente imediato dos brasileiros aqui na América do Sul (!!!), e da Suécia, por não ter a “importância” da França!!!! Curiosamente, o presidente brasileiro afirmou, na semana anterior ao dia “7 de Setembro”, que a “França era o único pais ‘importante’ que estava disposto a compartilhar tecnologia!!!! Eis uma afirmação que tem muitos problemas, especialmente no silêncio sobre a importância da Suécia.
Primeiro, é possível que esteja ocorrendo uma corrida armamentista no continente, mas essencialmente entre Colômbia e Venezuela e, em função da “projeção de poder” do presidente Chávez, ela está sendo disseminada para os seus aliados e antagonistas da região.
Contudo, o importante que deve ser destacado é que os analistas não estão percebendo a nova lógica das relações internacionais: apesar de ainda se agir em termos de política de poder, o que impera é a tendência para a Cooperação Internacional, Negociação Internacional e Diplomacia, estando às estratégias e políticas externas dos países voltadas mais para aquilo que se chama “Soft Power” (Poder Brando), ou seja, de forma resumida e com muitas perdas, o “poder de negociação”.
Para esse tipo de poder vale, principalmente, a diversidade de parceiros comerciais, parceiros militares e parceiros políticos no sistema internacional. Ao invés de alinhamentos automáticos com um único aliado, o essencial é a capacidade de diversificação. Não era essa a crítica que se fazia antes de 2002?
Deve-se destacar ainda a falta de percepção de que isso não ocorre por bondade, mas pela mudança na economia internacional, que viu surgir a “globalização da cadeia produtiva”, ou seja, as empresas estão espalhando a sua linha de produção em pedaços por vários países do mundo, de forma que, hoje, quanto mais um país está inserido juntamente com vários outros na cadeia produtiva mundial, mais ele está distante da possibilidade de viver uma guerra e mais ele ganha em importância, capacidade de decisão e de entrada no mercado mundial.
Exatamente por essa questão que a escolha por fazer todos os acordos “comerciais/ tecnológicos/militares” com um único parceiro significa o oposto do que o presidente brasileiro anunciou até agora como o grande objetivo do nosso país: ser um novo grande ator global, com capacidade de decidir o cenário internacional
Isso não significa que não se deva investir em defesa e trabalhar no seu desenvolvimento tecnológico. Pelo contrário, os conflitos localizados continuam e podem se intensificar, devido aqueles países que não aceitam entrar na produção mundial; buscam voltar ao século passado, quando os países agiam em blocos ideológicos; ou que tentam entrar na cadeia, mas não querem respeitar as necessidades da produção e, por isso, não negociam.
Essa é uma necessidade, enquanto o mundo não alcançar o patamar de governança que se busca por meio dos trabalhos, metodologias e técnicas de cooperação feitas por milhares de profissionais no globo. Além disso, à transferência e produção da tecnologia se espalha para todos os setores e produz desenvolvimento econômico que, se bem conduzido, também gera desenvolvimento social.
Deve-se destacar ainda que a afirmação do presidente Lula sobre a França ser o único país “importante” a transferir tecnologia nos traz muitas interrogações! Primeiramente, aceita-se que existem dificuldades de os EUA autorizarem a transferência e não se discute a sua importância, mas, não colocar a Suécia como país ‘importante”, não pode ser só uma questão de desconhecimento!
Inicialmente, a Suécia, pelo último ranking, está quatro posições na frente da França em termos de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Os suecos estão em sétimo e os Franceses em décimo primeiro. A Suécia é um modelo de negociação internacional e investe constantemente no estabelecimento de instituições internacionais, tem uma das economias que mais se destacam na Europa (embora seu PIB seja inferior ao da França) e ocupa a presidência da União Européia, com a esperança dos demais membros do Bloco, de que sua reconhecida competência dê um direcionamento para os europeus, corrigindo os erros a gestão que a antecedeu, que tem recebido severas críticas dos demais membros.
A tradição dos suecos nas defesas dos interesses coletivos, dos Direitos Humanos e seus investimento na “governança global” (que prega a participação ampliada dos atores nas tomadas de decisão em nível mundial) dão-lhe um destaque que deveria ser melhor considerado, por estar mais de acordo com as propostas daqueles que desejam mudar a configuração do mundo e anunciam que, hoje, não se pode organizar o cenário internacional com apenas sete, ou oito países.
Ademais, a Suécia tem um parque industrial e tecnológico de alto nível, com empresas agindo no mundo inteiro e, no tocante a tecnologia de caças de combate, é um dos únicos países do globo que fabrica, tendo vencido, aproximadamente, dois terços das concorrências nas quais participou, vencendo, inclusive, na Escola de Pilotos do Reino Unido. Esses são elementos para mostrar que a Suécia é “importante”, apesar deter sido desconsiderada. Além disso, os suecos também estão ofertando a possibilidade de transferir total de tecnologia e transferência de um parque industrial, com vistas não apenas a conquistar o mercado regional, mas em intensificar a inserção dos dois países (Brasil e Suécia) na cadeia produtiva global, dando grande amplitude ao Brasil, além da quantidade de empregos que pode gerar.
Dentro da nova lógica das relações internacionais, o Brasil ganha com a diversificação de parceiros para um acordo militar, tanto politicamente, quanto estrategicamente. Primeiro,porque se evita olhar o mundo com os olhos do século XX, o que não traz ganho em nenhum sentido.
De acordo com essa visão antiga, devem-se criar blocos de confronto militar, com a novidade de que agora o grande inimigo são os EUA. Convenhamos, os norte-americanos não são um grande inimigo, são um ator que quer negociar. Se não oferecerem as melhores condições, é só dizer não e vamos negociar com outro. Eles são sábios o suficiente para entender isso e tentar outra negociação.
Deve-se ressaltar ainda que, na atual conjuntura em que o Brasil adquire maior projeção, é importante manter negociações amplas com os EUA, os quais nos percebem como um grandioso parceiro, apesar de alguns discursos que são pronunciados por autoridades brasileiras.
Os norte-americanos sabem ainda que o Brasil tem tendência maior à negociação que ao confronto e, por isso, está aberto às parcerias. A novidade está na atual possibilidade que nós temos de impor limites e solicitar ações com benefícios mútuos, algo com o qual os EUA não discordam. A questão que precisa ser observada e corrigida, e às vezes leva à interpretação de que os norte-americanos não negociam se não lhes for excepcionalmente benéfico, é o fato de lá existirem instituições e legislações adequadas para tratar das questõesgerais e específicas sobre quaisquer negócios, trazendo credibilidade institucional e segurança jurídica ao processo, enquanto que no Brasil ainda se está a construir tais instituições e legislação. Deste problema também sofrem os suecos, que igualmente dispõem de instituições e legislações e, por isso, ficam à espera que o mesmo tratamento se dê aqui.
Assim, politicamente, os ganhos do Brasil, não parecem ser muito grandes em fazer uma parceria quase que exclusiva com os franceses. Com eles já se fechou um acordo de R$ 22,5 bilhões de reais e já se tem excelente trânsito. Porque perder a chance política de ter acordos e parcerias com variados e diversos atores no mundo. Isso é o que importa no mundo atual e não fazer bloco para ameaçar outro ator que pode estar sendo excluído da possibilidade de ser um grande parceiro futuro.
Além disso, em termos estratégicos, até o momento, são raros os estrategistas e analistas que afirmam ser positivo para um Estado fazer parceria técnico-militar com um único aliado. Apenas em casos e conjunturas específicas, bem diferentes da atual.
Sendo assim, espera-se que até o dia 23 de outubro, questões como essas sejam consideradas, pois são questões de Estado, que afetam o futuro do país e determinam uma vocação para a história. Que as luzes de nossos estadistas do passado iluminem as mentes daqueles que desejam se tornar estadistas, aos olhos das gerações futuras.

o presidente do Brasil deveria tomar uma providência e olhar para o caça sueco. quantas sugestões o caça tem, vai gerar muitos empregos, além do + o caça sueco poderá gerar uma boa parceria com o brasil no desenvolvimento tecnológico, reforçando a nossa defesa nacional …………….
O equipamento sueco tem muitas peças americanas, o que pode trazer problemas na questão de tecnologia adquirida. Veja o exemplo dos Super Tucanos que não é permitida a sua exportação sem a anuência americana que fornece parte dos itens usados na construção deste!